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domingo, 25 de outubro de 2026

O Veneno da Indignação


O ritual repete-se a cada amanhecer, logo após o primeiro gole de café ou mesmo durante a primeira cuia de chimarrão. Antes mesmo que o corpo desperte por completo, os olhos buscam a tela do celular, ansiosos pelo combustível do dia: a próxima indignação. Bastam alguns segundos de leitura sobre o último escândalo de Brasília, a declaração cínica do deputado da oposição ou a manobra de bastidores do partido rival para que o estômago se contraia. O sangue ferve. Uma fúria quase sagrada toma conta do peito, justificada pela certeza absoluta de se estar do lado certo da História.

Nas redes sociais e nos debates de calçada, a política deixou de ser a arte da convivência para se transformar em um tribunal de inquisição permanente. Já não se discutem projetos de saneamento ou reformas tributárias; discute-se o caráter moral do oponente, que precisa ser desmascarado, humilhado e extirpado do convívio social. O adversário político não é mais alguém que pensa diferente sobre a gestão da máquina pública; ele é o próprio mal encarnado. E, diante do mal, a única resposta permitida parece ser o rancor vigilante.

Essa dinâmica de aniquilação mútua atinge o seu ápice no momento mais sagrado da democracia: o voto. Diante da urna, o cidadão já não escolhe um projeto de futuro, mas uma arma de destruição. É aí que a armadilha do ressentimento se institucionaliza. Quando digitamos o número de um candidato notoriamente ruim, incapaz ou moralmente falido, apenas pelo prazer mórbido de ver o outro — igualmente nocivo — ser derrotado, operamos na mais pura essência do autoengano. Justificamos a escolha do nosso próprio carrasco sob o pretexto de que ele nos vingará do vizinho. Apertamos a confirmação na urna e bebemos, de bom grado, o cálice de um governo medíocre, acreditando ingenuamente que a nossa dose de sofrimento será menor do que a punição infligida ao rival. É o voto transformado em suicídio coletivo: tomamos o veneno esperando que a oposição morra.

Nutrimos esse ódio de estimação como se ele fosse uma armadura ou uma virtude cívica. Acordamos pensando no contra-ataque retórico e dormimos ensaiando o linchamento virtual do dia seguinte. No entanto, enquanto a mente desenha o cenário ideal em que o inimigo finalmente cai em desgraça, a realidade do corpo cobra o seu preço. A gastrite ataca, o sono foge, a paciência com os filhos esgota-se na primeira palavra. Guardar ressentimento é exatamente como tomar veneno esperando que o outro morra.

A ironia da política moderna é que o alvo da nossa fúria sequer sabe da nossa existência. O governante corrupto continua usufruindo de seus privilégios, o militante profissional do outro espectro segue lucrando com o engajamento do algoritmo, e o vizinho que ostenta a bandeira do partido rival dorme o sono dos justos. Enquanto isso, nós — os guardiões da indignação — consumimos o frasco inteiro de cicuta, dia após dia, acreditando que a nossa azia destruirá o palácio do opressor.

Para os que tentam equilibrar a paixão política com a fé cristã, o paradoxo se torna ainda mais agudo. O Evangelho, tantas vezes usado como slogan de campanha ou escudo moral nos debates públicos, é o primeiro a ser crucificado no altar do pragmatismo partidário. Substitui-se o Sermão da Montanha pelo manual da guerrilha cultural. Esquece-se, por conveniência, que a mensagem de Jesus subverteu radicalmente a lógica do poder de sua época não ao tomar o trono de César, mas ao se recusar a adotar os métodos de César.

As Escrituras não deixam margem para o ódio pedagógico ou para o rancor justificável. Quando o Evangelho nos exorta a “orar pelos que vos perseguem” e a “perdoar setenta vezes sete”, não o faz por capricho místico ou passividade covarde, mas por um profundo conhecimento da psicologia humana. O perdão cristão nunca foi uma absolvição jurídica dos erros alheios, nem uma validação da injustiça social. Ele é, antes de tudo, um ato de legítima defesa espiritual. É a recusa solene em permitir que a maldade do outro determine a qualidade do meu próprio coração.

Quando Cristo adverte que “o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai dela”, Ele está apontando diretamente para o veneno destilado nas discussões inflamadas e nos julgamentos sumários que fazemos em nome do bem comum. Ao transformarmos a arena pública em um campo de extermínio moral, acabamos por praticar exatamente os vícios que juramos combater. O puritano que odeia o corrupto com fúria cega torna-se, ele mesmo, corrupto na alma.

A verdadeira emancipação política e espiritual começa quando paramos de beber o cálice da amargura diária. Romper com esse ciclo não significa alienação ou covardia diante das injustiças do mundo. Significa compreender que a transformação social genuína não nasce da bílis, mas da justiça temperada pela misericórdia. Exigir integridade dos governantes e lutar por um país mais justo são deveres legítimos, mas que perdem todo o sentido se, no processo, nos tornarmos monstros moldados pelo rancor.

Ao final do dia, as telas se apagarão, as legislaturas passarão e os heróis e vilões políticos de hoje serão as notas de rodapé dos livros de História de amanhã. O veneno que ingerimos voluntariamente na esperança de punir o mundo, contudo, deixará marcas profundas em nossa própria carne e nas nossas relações mais íntimas. Que possamos, antes que o frasco esvazie de vez, redescobrir a sobriedade do Evangelho: aquela que nos ensina a combater o bom combate sem perder a capacidade de estender a mão, lembrando que a paz de uma nação começa, invariavelmente, na paz do espírito.

 

Saudações,

Kurt Hilbert

 

domingo, 18 de outubro de 2026

Por Que Arão Não Foi Punido?


Quando Arão construiu um bezerro de ouro para os israelitas adorarem, em Êxodo 32, houve um julgamento severo sobre o povo. No entanto, Arão continuou a servir como sumo sacerdote. Não parece justo que ele tenha escapado da punição – afinal, foi ele quem fez o ídolo – enquanto outros foram julgados.

Há duas respostas possíveis. Primeiro, poderíamos argumentar que Arão foi punido por ter feito o bezerro de ouro. Embora não tenha sido punido naquele exato momento, Arão morreria mais tarde no deserto e nunca entraria na Terra Prometida. Arão também sofreu a perda de dois de seus filhos adultos em um julgamento de Deus. Depois que Arão fez o bezerro de ouro, sua vida incluiu muitas dificuldades que poderiam ser vistas como uma punição.

Uma segunda resposta é que Deus não puniu Arão por ter feito o bezerro de ouro porque ele já havia sido escolhido como sumo sacerdote de Israel. Apesar do pecado de Arão, sua função de liderar a adoração no tabernáculo continuou sendo vital. Êxodo 28 revela o importante papel que Arão e seus filhos desempenhariam nos rituais de adoração de Israel. A posição de sumo sacerdote foi prometida em Êxodo 28 antes de Arão moldar o bezerro de ouro em Êxodo 32.

É seguro dizer que Deus usou uma pessoa improvável para servir em uma função importante. Arão, o homem que desviou os israelitas para adorar um bezerro de ouro, foi o mesmo homem que Deus escolheu para liderar Israel na adoração ao Senhor. Esse padrão é observado com frequência nas Escrituras. Muitas vezes, Deus usa os menos prováveis para realizar tarefas para a Sua glória. Outros exemplos incluem Davi, um menino pastor de ovelhas que se tornou rei; Paulo, um perseguidor da igreja que se tornou mártir e líder missionário; Pedro, um pescador que se tornou evangelista; Maria Madalena, uma mulher possuída por demônios que se tornou a primeira a ver Jesus ressuscitado; e muitos outros. “Deus escolheu as coisas absurdas do mundo para envergonhar os sábios; e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes” (1 Coríntios 1:27).

Também é importante considerar dois outros fatores relacionados a Arão e ao bezerro de ouro. Primeiro, Arão estaria entre aqueles que se arrependeram do pecado. Êxodo 32:26 diz: “Moisés ficou em pé na entrada do acampamento e disse: Quem está do lado do SENHOR venha até mim. Então, todos os levitas reuniram-se a ele”. Como filho de Levi, Arão foi um dos que se arrependeram, e Deus o perdoou. Em segundo lugar, o versículo 30 observa que Moisés intercedeu pelo povo: “Cometestes um grande pecado. Agora, porém, subirei ao SENHOR; talvez eu possa fazer expiação pelo vosso pecado”.

O exemplo de Arão e o bezerro de ouro é relevante ainda hoje. Quando pecamos, o Senhor nos chama para nos arrependermos e recebermos o Seu perdão, com base na intercessão do nosso Mediador, o Senhor Jesus Cristo (1 Timóteo 2:5). Quando somos restaurados, Deus pode usar a nossa vida a Seu serviço.

 

Fonte: www.GotQuestions.org/Portugues

domingo, 11 de outubro de 2026

Um Evangelho Único – Capítulo 11


 

          Jesus é o Senhor do sábado (Mateus 12:1-8; Marcos 2:23-28; Lucas 6:1-5)

          Certo sábado Jesus estava passando pelas lavouras de cereal. Seus discípulos estavam com fome e, enquanto caminhavam, começaram a colher espigas e debulhá-las com as mãos, para comer os grãos.

          Alguns fariseus, vendo aquilo, lhe perguntaram:

          “Olha, por que os teus discípulos estão fazendo o que não é permitido no sábado?”

          Jesus lhes respondeu:

          “Vocês nunca leram o que fez Davi, quando ele e seus companheiros estavam necessitados e com fome? Nos dias de Abiatar, o sumo sacerdote, ele entrou na casa de Deus e, juntamente com os seus companheiros, comeu os pães da Presença, o que não lhes era permitido fazer, mas apenas aos sacerdotes era permitido comer, e os deu também aos seus companheiros. Ou vocês não leram na Lei que, no sábado, os sacerdotes no templo profanam esse dia e, contudo, ficam sem culpa? Eu lhes digo que aqui está o que é maior do que o templo. Se vocês soubessem o que significam estas palavras: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’, não teriam condenado inocentes. O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”.

 

          O homem da mão atrofiada (Mateus 12:9-14; Marcos 3:1-6; Lucas 6:6-11)

          Saindo daquele lugar, noutra ocasião, dirigiu-se à sinagoga deles e começou a ensinar, e estava ali um homem cuja mão direita era atrofiada.

          Alguns deles, os fariseus e os mestres da lei, estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso o observavam atentamente, para ver se ele iria curá-lo no sábado. Mas Jesus sabia o que eles estavam pensando. Eles lhe perguntaram:

          “É permitido curar no sábado?”

          Ele lhes respondeu:

          “Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado”.

          Então ele disse ao homem da mão atrofiada:

          “Levante-se e venha para o meio”.

          Ele se levantou e foi.

          Depois Jesus disse:

          “Eu lhes pergunto: o que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou destruí-la?”

          Mas eles permaneceram em silêncio.

          Irado, olhou para todos os que estavam à sua volta e, profundamente entristecido por causa dos seus corações endurecidos, disse ao homem:

          “Estenda a mão”.

          Ele a estendeu, e ela foi restaurada, e ficou boa como a outra.

          Então os fariseus ficaram furiosos, saíram e começaram a discutir entre si, e a conspirar com os herodianos, sobre o que poderiam fazer contra Jesus, como poderiam matá-lo.

 

          A cura de muitos à beira-mar (Mateus 12:15-21; Marcos 3:7-12)

          Sabendo disso, Jesus retirou-se daquele lugar, junto com os seus discípulos para o mar, e uma grande multidão vinda da Galileia o seguia. Quando ouviram a respeito de tudo o que ele estava fazendo, muitas pessoas procedentes da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia e das regiões do outro lado do Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidom foram atrás dele.

          Por causa da multidão, ele disse aos discípulos que lhe preparassem um pequeno barco, para evitar que o comprimissem; pois ele havia curado a muitos, de modo que os que sofriam de doenças ficavam se empurrando para conseguir tocar nele.

          Muitos o seguiam, e ele curou a todos os doentes que havia entre eles, advertindo-os que não dissessem quem ele era.

          Isso aconteceu para se cumprir o que fora dito por meio do profeta Isaías: “Eis o meu servo, a quem escolhi, o meu amado, em quem tenho prazer. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará justiça às nações. Não discutirá nem gritará; ninguém ouvirá a sua voz nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não apagará o pavio fumegante, até que leve à vitória a justiça. Em seu nome as nações porão sua esperança”.

          Sempre que os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam:

          “Tu és o Filho de Deus”.

          Mas ele lhes dava ordens severas para que não dissessem quem ele era.


(uma livre adaptação, usando como base os textos da tradução bíblica NVI – Nova Versão Internacional)

domingo, 4 de outubro de 2026

Eles Vieram Num Disco Voador?


 

Jó 36:18

“Cuidado! Que ninguém o seduza com riquezas; não se deixe desviar por suborno, por maior que este seja”.

 

Foi Eliú, um dos amigos de Jó, quem disse o que está logo acima, como mote para este texto.

Mas hein?!

Não parece que esta fala cai como uma luva para o nosso tempo, para o nosso país, para a nossa gente – e para quem nos representa no poder, isto é, os políticos? Não parece que esta fala se encaixaria diretamente em alguma comissão parlamentar em Brasília ou em um palácio governamental de qualquer capital brasileira – ou mesmo naquele pequeno município vizinho seu, ou no seu mesmo?

Parece que, dadas as notícias que grassam por aí, estamos envolvidos num caos de corrupção pública/privada!

Mas vamos refletir um pouquinho, para ver como isso tudo nos toca.

A verdade é que temos uma mania quase infantil de terceirizar o caos. Quando o assunto é corrupção, vestimos imediatamente a nossa capa de virtude invisível e apontamos o dedo para o horizonte. O culpado é sempre o Excelentíssimo Senhor Deputado, o Governador, o Prefeito ou o Secretário. Falamos deles como se fossem uma casta exótica, uma espécie biológica à parte que brotou espontaneamente nos palácios de mármore.

Dia desses questionei se, na cabeça do cidadão comum, os políticos desceram na Esplanada dos Ministérios a bordo de um disco voador reluzente, vindos de uma galáxia distante e moralmente corrompida. Podemos até imaginar a cena: a nave pousando no Planalto Central, as portas se abrindo cinematograficamente e uma criatura de terno e gravata descendo, pisando em solo terráqueo com o único e exclusivo propósito de sacanear o orçamento público. Quem sabe o Presidente da República é um ET? O mesmo pode acontecer no Palácio do Governo do seu Estado, ou na Câmara de Deputados Estaduais, ou na Prefeitura e na Câmara de Vereadores. Por que não? Seriam todos ETs?

Só que não... A ficção científica termina assim que olhamos o espelho retrovisor da realidade. Eles não vieram de Marte. Não vieram de Alfa Centauri. Vieram do meio de nós. Um dia pegaram o mesmo ônibus, frequentaram a mesma padaria, estudaram nas mesmas escolas e, o mais importante, receberam o selo de autenticidade jurídica e moral através do nosso próprio voto. Não existe povo absolutamente honesto com governo corrupto, assim como não existe governo absolutamente honesto com povo corrupto. O governo é, por definição e espelhamento, a média matemática da alma de sua nação.

“Ah, mas eu sou diferente!” – brada o paladino da moralidade do alto de sua timeline nas redes sociais. “Eu sou honesto, incorruptível, incapaz de desviar um centavo nem me envolver em falcatruas!”

Será? É uma afirmação bonita! Dá até orgulho de ouvir!

Mas será que é mesmo? Topa um teste?

Se topar, vamos lá... Vamos só imaginar...

Você é um bom motorista, mas, lá pelas tantas, teve uma maré de azar e, num mesmo mês, foi flagrado por um pardal a cometer pequenas infrações de velocidade, ultrapassagens em local proibido e parada em fila dupla – esta aferida por um agente de trânsito.

Pronto! Atingiu o limite de pontos perdidos e sua carteira de habilitação dançou, além da soma de multas ser significativa.

Mas eis que você tem um conhecido – com quem você comenta o infortúnio ocorrido – que lhe dá uma informação assaz útil: ele tem um conhecido no departamento de trânsito que tem acesso ao sistema e, por uma pequena ajuda monetária simbólica, pode apagar seus dados e zerar sua pontuação infratora, além de zerar também o numerário devedor em multas – e o melhor: com total segurança, sem ninguém saber e sem ninguém poder ligar a subtração de dados a você.

E agora? O que fazer? Pagar pelos seus erros ao volante e perder sua carteira de habilitação por um bom tempo, além de pagar o valor considerável em multas ou... Ou, por um pequeno suborno, limpar sua barra? E agora? Oh, dúvida cruel...!

Sim, este é apenas um pequeno teste de virtude, uma ficção, uma metáfora... E espero que nunca ocorra com você...

Mas o teste da virtude raramente se apresenta com malas de dinheiro em hotéis cinco estrelas ou grandes esquemas de propina em contratos de infraestrutura. A vida real é muito mais sutil. O diabo da tentação não usa chifres e capa vermelha; ele costuma se vestir com a roupa de “um conhecido de um conhecido” que quer apenas nos quebrar um galho.

E aí? Será mesmo que o político desceu num disco voador ... Ou você o elegeu, à sua imagem e semelhança?

Mas hein?!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert

domingo, 27 de setembro de 2026

Um Evangelho Único – Capítulo 10

 


          A cura de um paralítico em Cafarnaum (Mateus 9:1-8; Marcos 2:1-12; Lucas 5:17-26)

          Entrando Jesus num barco, atravessou o mar e foi para a sua própria cidade.

          Poucos dias depois, tendo Jesus entrado novamente em Cafarnaum, o povo ouviu falar que ele estava em casa. Então muita gente se reuniu ali, de forma que não havia lugar nem junto à porta; e ele lhes pregava a palavra.

          Certo dia, quando ele ensinava, estavam sentados ali fariseus e mestres da lei, procedentes de todos os povoados da Galileia, da Judeia e de Jerusalém. E o poder do Senhor estava com ele para curar os doentes.

          Vieram alguns homens, trazendo-lhe um paralítico, carregado por quatro deles, e tentaram fazê-lo entrar na casa, para colocá-lo diante de Jesus. Não conseguindo fazer isso, por causa da multidão, subiram ao terraço, removeram parte da cobertura do lugar onde Jesus estava e, através de uma abertura no teto, baixaram a maca em que estava deitado o paralítico, até o meio da multidão, bem em frente de Jesus.

          Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico:

          “Tenha bom ânimo, filho; os seus pecados estão perdoados”.

          Estavam sentados ali alguns fariseus e mestres da lei, raciocinando em seu íntimo, e começaram a pensar e disseram a si mesmos:

          “Por que esse homem fala assim? Este homem está blasfemando! Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?”

          Jesus percebeu logo em seu espírito que era isso que eles estavam pensando e, conhecendo seus pensamentos, sabendo o que eles estavam pensando, perguntou e lhes disse:

          “Por que vocês estão remoendo essas coisas em seus corações e pensando assim? Por que vocês pensam maldosamente? Que é mais fácil dizer ao paralítico: ‘Os seus pecados estão perdoados’, ou: ‘Levante-se, pegue a sua maca e ande’? Mas, para que vocês saibam que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados – disse ao paralítico – eu lhe digo: Levante-se, pegue a sua maca e vá para casa”.

          Imediatamente ele se levantou na frente deles, pegou a maca em que estivera deitado e saiu à vista de todos, e foi para casa louvando a Deus.

          Vendo isso, a multidão ficou cheia de temor, ficaram atônitos e glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens, e, cheios de temor, diziam:

          “Nunca vimos nada igual! Hoje vimos coisas extraordinárias!”

 

          A vocação de Mateus (Mateus 9:9; Marcos 2:13-14; Lucas 5:27-28)

          Jesus saiu outra vez para beira-mar. Uma grande multidão aproximou-se, e ele começou a ensiná-los.

          Depois disso, Jesus saiu e, passando por ali, viu um publicano chamado Levi (Mateus), filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe:

          “Siga-me”.

          Mateus levantou-se, deixou tudo e o seguiu.

 

          Jesus come com pecadores (Mateus 9:10-13; Marcos 2:15-17; Lucas 5:29-32)

          Então Levi ofereceu um grande banquete a Jesus em sua casa. Estando Jesus na casa de Levi, durante a refeição foram comer com ele e seus discípulos muitos publicanos e “pecadores” e outras pessoas, pois havia muitos que o seguiam.

          Vendo isso, os fariseus e aqueles mestres da lei que eram da mesma facção queixaram-se aos discípulos de Jesus e perguntaram:

          “Por que vocês e o mestre de vocês comem com publicanos e ‘pecadores’?”

          Ouvindo isso, Jesus lhes respondeu e disse:

          “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’. Pois eu não vim para chamar justos, mas pecadores ao arrependimento”.

 

          Sobre o jejum (Mateus 9:14-17; Marcos 2:18-22; Lucas 5:33-39)

          Os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando. Então algumas pessoas e os discípulos de João vieram perguntar-lhe:

          “Por que nós jejuamos e oramos frequentemente, bem como os fariseus e os seus discípulos, mas os teus discípulos não; vivem comendo e bebendo?”

          Jesus respondeu:

          “Como podem os convidados do noivo ficar de luto e jejuar enquanto o noivo está com eles? Não podem, enquanto o têm consigo. Mas virão dias quando o noivo lhes será tirado; então, nesse tempo e naqueles dias, jejuarão”.

          Então lhes contou esta parábola:

          “Ninguém tira remendo de roupa nova e costura em roupa velha, pois o remendo forçará a roupa, tornando pior o rasgo; se o fizer, estragará a roupa nova, além de que o remendo da nova não se ajustará à velha. E ninguém põe vinho novo em vasilhas de couro velhas; se o fizer, o vinho novo rebentará as vasilhas, se derramará e tanto o vinho quanto as vasilhas se estragarão. Pelo contrário, vinho novo deve ser posto em vasilhas de couro novas; e ambos se conservam. E ninguém, depois de beber o vinho velho, prefere o novo, pois diz: ‘O vinho velho é melhor!’”


(uma livre adaptação, usando como base os textos da tradução bíblica NVI – Nova Versão Internacional)


domingo, 20 de setembro de 2026

O Que Significa Ser Pobre de Espírito?


 

Nas bem-aventuranças do Sermão da Montanha, Jesus declara: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5:3). O que exatamente significa ser pobre de espírito e por que ser pobre de espírito resulta no Reino dos Céus? Por que Deus quer que sejamos “pobres de espírito”? Por que Deus quer que sejamos “pobres” em alguma coisa?

Alguns propõem que Jesus está falando de pobreza financeira, que Ele está defendendo que sejamos pobres para que as riquezas e as posses não se interponham entre nós e Deus. Embora seja verdade que Jesus tenha advertido contra a busca de riquezas (Mateus 6:24), esse não parece ser o objetivo de Jesus em Mateus 5:3. Jesus está falando de ser “pobre de espírito”, ou seja, ser “espiritualmente pobre”. Nas bem-aventuranças, Jesus está preocupado com as realidades espirituais, não com as posses materiais. O que, então, significa ser espiritualmente pobre?

Ser pobre em espírito é reconhecer a sua total falência espiritual diante de Deus. É entender que você não tem absolutamente nada de valor para oferecer a Deus. Ser pobre de espírito é admitir que, por causa de seu pecado, você está completamente destituído espiritualmente e não pode fazer nada para se livrar de sua terrível situação. Jesus está dizendo que, independentemente do seu status na vida, você deve reconhecer a sua pobreza espiritual antes de se aproximar de Deus com fé para receber a salvação que Ele oferece.

Por que e como o fato de ser pobre de espírito resulta no Reino dos Céus? Embora a frase possa ter um significado amplo, “Reino dos Céus” refere-se essencialmente à salvação. O Reino dos Céus é tanto a eternidade no céu com Deus após a morte (Romanos 6:23) quanto a qualidade de vida eterna com Deus antes da morte (João 10:10). Deus nos oferece a salvação como um presente, por meio do sacrifício de Jesus Cristo na cruz, o pagamento integral da penalidade do pecado. Antes de recebermos essa dádiva, precisamos entender que não podemos nos tornar dignos dela. A salvação é pela graça por meio da fé, não por obras (Efésios 2:8-9). Precisamos reconhecer a nossa pecaminosidade antes de entendermos a nossa necessidade de um Salvador. Devemos admitir a nossa pobreza espiritual antes de podermos receber as riquezas espirituais que Deus oferece (Efésios 1:3). Em resumo, precisamos ser “pobres de espírito”.

Quando Jesus diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”, Ele está declarando que, antes de podermos entrar no Reino de Deus, precisamos reconhecer a total inutilidade de nossa própria moeda espiritual e a incapacidade de nossas próprias obras de nos salvar.

 

Fonte: www.GotQuestions.org/Portugues

domingo, 13 de setembro de 2026

Um Evangelho Único – Capítulo 9



          Muitas outras curas (Mateus 8:16-17; Marcos 1:32-34; Lucas 4:40-41)

          Ao anoitecer, depois do pôr-do-sol, o povo levou a Jesus todos os doentes, os que tinham vários tipos de doenças; e ele curou todos, impondo as mãos sobre cada um deles. E dos endemoninhados, trazidos a ele, ele expulsou os espíritos com uma palavra.

          Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era.

          Além disso, de muitas pessoas saíam demônios gritando:

“Tu és o Filho de Deus!”

          Ele, porém, os repreendia e não permitia que falassem, porque sabiam que ele era o Cristo.

          E assim se cumpriu o que fora dito pelo profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças”.

 

          Jesus vai a um lugar deserto para orar (Marcos 1:35-39; Lucas 4:42-44)

          Ao romper do dia, de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa e foi para um lugar deserto, solitário, onde ficou orando. Simão e seus companheiros foram procurá-lo e, ao encontrá-lo, disseram:

          “Todos estão te procurando!”

          Jesus respondeu e disse:

          “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim”.

          As multidões o procuravam e, quando chegaram até onde ele estava, insistiam que não as deixasse.

          Mas ele disse:

          “É necessário que eu pregue as boas novas do Reino de Deus noutras cidades também, porque para isso fui enviado”.

          Então ele percorreu toda a Galileia, e continuava pregando nas sinagogas da Judeia e expulsando os demônios.

 

          A pesca maravilhosa (Mateus 4:18-22; Marcos 1:16-20; Lucas 5:1-11)

          Certo dia Jesus estava andando perto do lago de Genesaré, o mar da Galileia, e uma multidão o comprimia de todos os lados para ouvir a palavra de Deus.

          Viu à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que estavam lavando as suas redes.

          Entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se, e do barco ensinava o povo.

          Tendo acabado de falar, disse a Simão:

          “Vá para onde as águas são mais fundas”, e a todos: “Lancem as redes para a pesca”.

          Simão respondeu:

          “Mestre, esforçamo-nos a noite inteira e não pegamos nada. Mas, porque és tu quem está dizendo isto, vou lançar as redes”.

          Quando o fizeram, pegaram tal quantidade de peixe que as redes começaram a rasgar-se. Então fizeram sinais a seus companheiros no outro barco, para que viessem ajudá-lo; e eles vieram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase começarem a afundar.

          Quando Simão Pedro viu isso, prostrou-se aos pés de Jesus e disse:

          “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!”

          Pois ele e todos os seus companheiros estavam perplexos com a pesca que haviam feito, como também Tiago e João, os filhos de Zebedeu, sócios de Simão.

          Então Jesus disse a Simão:

          “Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de homens”.

          Eles então arrastaram seus barcos para a praia, deixaram tudo e o seguiram.

          Um pouco mais adiante, Jesus já houvera visto os outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando as suas redes.

          Jesus logo os chamou e disse:

          “Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”.

          E eles, deixando imediatamente os empregados no barco e seu pai Zebedeu, o seguiram.

 

          A cura de um leproso (Mateus 8:1-4; Marcos 1:40-45; Lucas 5:12-16)

          Quando ele desceu do monte, grandes multidões o seguiram.

          Estando Jesus numa das cidades, passou um homem coberto de lepra. Quando viu a Jesus, aproximando-se dele, o leproso prostrou-se com o rosto em terra e adorou-o de joelhos e suplicou-lhe e disse:

          “Senhor, se quiseres, podes purificar-me!”

          Cheio de compaixão, Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse:

          “Quero. Seja purificado!”

          Imediatamente ele foi purificado da lepra e a lepra o deixou. Em seguida Jesus o despediu, com uma severa advertência e lhe ordenou:

          “Olhe, não conte isso a ninguém. Mas vá mostrar-se ao sacerdote e ofereça pela sua purificação os sacrifícios e apresente a oferta que Moisés ordenou, para que sirva de testemunho”.

          Ele, porém, saiu e começou a tornar público o fato, espalhando a notícia.

          As notícias a respeito dele se espalhavam ainda mais, de forma que multidões vinham para ouvi-lo e para serem curadas de suas doenças.

          Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente em nenhuma cidade, mas ficava fora, retirava-se para lugares solitários e orava. Todavia, assim mesmo vinha a ele gente de todas as partes.


(uma livre adaptação, usando como base os textos da tradução bíblica NVI – Nova Versão Internacional)

domingo, 6 de setembro de 2026

Descansar Somente


 

Salmo 62:1

A minha alma descansa somente em Deus; dele vem a minha salvação.

 

Há vezes em que a casa toda dorme, mas nossa mente segue acordada, como se estivesse num processo de marcha, daquelas marchas que obedecem às batidas de tambor, como que em toque de caixa.

Lá fora, a madrugada segue silenciosa, mas, dentro, na mente, reviram-se pensamentos que viajam pelas faturas vencidas, promessas não cumpridas ou palavras mal ditas do dia anterior. Há, contrastando com a serenidade do sereno da madrugada, um tumulto interno, caindo na mente, uma algazarra de pensamentos que se atropelam, tateando por soluções imediatas, defesas prontas e estratégias de sobrevivência para o mundo lá fora, não o de agora, mas aquele de se descortinará no amanhecer.

Nos levantamos no escuro, talvez exigidos pelo desconforto da bexiga que necessita ser aliviada biologicamente. No deslocamento ao banheiro, além da bexiga, também o peito segue apertado, o passo curto, a alma funcionando como num balburiante dia de feira, onde todos gritam e ninguém entende. A bexiga volta desapertada; o peito não.

Há vezes em que não adianta voltar à cama. Numa destas vezes, podemos nos sentar e – quem sabe? – abrir a Bíblia para encontrar algum desaperto, algum conforto, talvez o sono de volta...

Aí, abre-se no Salmo 62, e trava-se no primeiro versículo – este que serve de mote para estes escritos...

Depois de lê-lo, fechamos os olhos, como quem procura uma prece. Repetimos a frase. Mas, como que aos gritos mentais, reverbera uma frase em nós: “Como descansar?”

Nos sentimos culpados pela pressa da resposta, com um agito almático que demanda essa pressa, pressa esta que Deus parece não ter e, de certa forma, parece querer nos ensinar a não termos também.

Estes tempos em que vivemos nos condicionaram para a urgência; urgência em respondermos de pronto, em entregarmos no prazo, em cumprirmos os horários.

Mas, no horário na madrugada do relógio e na madrugada da alma, não há o que fazer, a não ser esperar; esperar por uma resposta à nossa angústia ou, mesmo, esperar que o dia amanheça para voltarmos a correr atrás do vento.

Outra coisa que a vida moderna nos ensinou: tudo depende de ti. Sim, nós é que temos que empurrar as coisas para que aconteçam, a conferir o celular a cada dez minutos, a responder, a responder e a responder... Nós estamos aqui, tentando empurrar o rio para ver se ele corre mais depressa. Mas o rio, como a vida, tem seu próprio fluxo e velocidade.

Assim como esperamos o celular despertar para levantarmos, esperamos um novo dia com derrotas, com imobilidades à toda velocidade, à morte do leão do dia que nos arrebenta, que não matamos, mas que nos devolve à cama à noite, certos de que apanhamos mais uma vez...

Mas desistir é um luxo que não podemos ter...

E agora, voltado de salto ao tempo presente da madrugada com a Bíblia na mão, o dedo segue na palavra “descansa”.

Como que num inspirar revelador do Espírito Santo, nos damos conta que o salmista não estava sentado à beira do caminho esperando o tempo passar. Ele estava, isto sim, mandando a alma calar-se e aquietar-se. E estava se dando conta de como – ou em Quem – descansar: somente em Deus!

Essa consciência, assim como tomou o salmista, vai nos tomando também... Posso descansar em Deus! Não sei como, mas Ele sabe! Basta que eu lhe dê minha alma aos cuidados, confiando, e serenando os pensamentos... Basta que eu Lhe diga: Senhor, não sei como, mas eu me entrego ao descanso em Ti!

Voltamos à cama e, como num passe de milagrosa mágica, voltamos a dormir – pelo menos um pouco...

Ao amanhecer, não teremos todas as respostas, mas as portas das possibilidades são vislumbradas abertas. Entendemos que o maior milagre não é a resolução imediata do que há para ser resolvido, mas a divisão de fardos... Não carregamos mais nada sozinhos... Dividimos tudo com o Senhor!

Sim, a alma se aquieta. Naquele peito apertado pelo pânico, iniciam suas moradias a confiança, a clareza, a luz. Não precisamos carregar o – nosso – mundo nos ombros. Resta-nos, agora, a leveza do peso e a certeza da ajuda que vem do alto!

Lá fora, os dias continuarão exigentes, mas sabemos que não entramos nas batalhas desarmados e cansados. Nossa alma aprendeu o ofício de descansar – em Deus!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert