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domingo, 6 de setembro de 2026

Descansar Somente


 

Salmo 62:1

A minha alma descansa somente em Deus; dele vem a minha salvação.

 

Há vezes em que a casa toda dorme, mas nossa mente segue acordada, como se estivesse num processo de marcha, daquelas marchas que obedecem às batidas de tambor, como que em toque de caixa.

Lá fora, a madrugada segue silenciosa, mas, dentro, na mente, reviram-se pensamentos que viajam pelas faturas vencidas, promessas não cumpridas ou palavras mal ditas do dia anterior. Há, contrastando com a serenidade do sereno da madrugada, um tumulto interno, caindo na mente, uma algazarra de pensamentos que se atropelam, tateando por soluções imediatas, defesas prontas e estratégias de sobrevivência para o mundo lá fora, não o de agora, mas aquele de se descortinará no amanhecer.

Nos levantamos no escuro, talvez exigidos pelo desconforto da bexiga que necessita ser aliviada biologicamente. No deslocamento ao banheiro, além da bexiga, também o peito segue apertado, o passo curto, a alma funcionando como num balburiante dia de feira, onde todos gritam e ninguém entende. A bexiga volta desapertada; o peito não.

Há vezes em que não adianta voltar à cama. Numa destas vezes, podemos nos sentar e – quem sabe? – abrir a Bíblia para encontrar algum desaperto, algum conforto, talvez o sono de volta...

Aí, abre-se no Salmo 62, e trava-se no primeiro versículo – este que serve de mote para estes escritos...

Depois de lê-lo, fechamos os olhos, como quem procura uma prece. Repetimos a frase. Mas, como que aos gritos mentais, reverbera uma frase em nós: “Como descansar?”

Nos sentimos culpados pela pressa da resposta, com um agito almático que demanda essa pressa, pressa esta que Deus parece não ter e, de certa forma, parece querer nos ensinar a não termos também.

Estes tempos em que vivemos nos condicionaram para a urgência; urgência em respondermos de pronto, em entregarmos no prazo, em cumprirmos os horários.

Mas, no horário na madrugada do relógio e na madrugada da alma, não há o que fazer, a não ser esperar; esperar por uma resposta à nossa angústia ou, mesmo, esperar que o dia amanheça para voltarmos a correr atrás do vento.

Outra coisa que a vida moderna nos ensinou: tudo depende de ti. Sim, nós é que temos que empurrar as coisas para que aconteçam, a conferir o celular a cada dez minutos, a responder, a responder e a responder... Nós estamos aqui, tentando empurrar o rio para ver se ele corre mais depressa. Mas o rio, como a vida, tem seu próprio fluxo e velocidade.

Assim como esperamos o celular despertar para levantarmos, esperamos um novo dia com derrotas, com imobilidades à toda velocidade, à morte do leão do dia que nos arrebenta, que não matamos, mas que nos devolve à cama à noite, certos de que apanhamos mais uma vez...

Mas desistir é um luxo que não podemos ter...

E agora, voltado de salto ao tempo presente da madrugada com a Bíblia na mão, o dedo segue na palavra “descansa”.

Como que num inspirar revelador do Espírito Santo, nos damos conta que o salmista não estava sentado à beira do caminho esperando o tempo passar. Ele estava, isto sim, mandando a alma calar-se e aquietar-se. E estava se dando conta de como – ou em Quem – descansar: somente em Deus!

Essa consciência, assim como tomou o salmista, vai nos tomando também... Posso descansar em Deus! Não sei como, mas Ele sabe! Basta que eu lhe dê minha alma aos cuidados, confiando, e serenando os pensamentos... Basta que eu Lhe diga: Senhor, não sei como, mas eu me entrego ao descanso em Ti!

Voltamos à cama e, como num passe de milagrosa mágica, voltamos a dormir – pelo menos um pouco...

Ao amanhecer, não teremos todas as respostas, mas as portas das possibilidades são vislumbradas abertas. Entendemos que o maior milagre não é a resolução imediata do que há para ser resolvido, mas a divisão de fardos... Não carregamos mais nada sozinhos... Dividimos tudo com o Senhor!

Sim, a alma se aquieta. Naquele peito apertado pelo pânico, iniciam suas moradias a confiança, a clareza, a luz. Não precisamos carregar o – nosso – mundo nos ombros. Resta-nos, agora, a leveza do peso e a certeza da ajuda que vem do alto!

Lá fora, os dias continuarão exigentes, mas sabemos que não entramos nas batalhas desarmados e cansados. Nossa alma aprendeu o ofício de descansar – em Deus!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert