O
ritual repete-se a cada amanhecer, logo após o primeiro gole de café ou mesmo
durante a primeira cuia de chimarrão. Antes mesmo que o corpo desperte por
completo, os olhos buscam a tela do celular, ansiosos pelo combustível do dia:
a próxima indignação. Bastam alguns segundos de leitura sobre o último
escândalo de Brasília, a declaração cínica do deputado da oposição ou a manobra
de bastidores do partido rival para que o estômago se contraia. O sangue ferve.
Uma fúria quase sagrada toma conta do peito, justificada pela certeza absoluta
de se estar do lado certo da História.
Nas
redes sociais e nos debates de calçada, a política deixou de ser a arte da convivência
para se transformar em um tribunal de inquisição permanente. Já não se discutem
projetos de saneamento ou reformas tributárias; discute-se o caráter moral do
oponente, que precisa ser desmascarado, humilhado e extirpado do convívio
social. O adversário político não é mais alguém que pensa diferente sobre a
gestão da máquina pública; ele é o próprio mal encarnado. E, diante do mal, a
única resposta permitida parece ser o rancor vigilante.
Essa
dinâmica de aniquilação mútua atinge o seu ápice no momento mais sagrado da
democracia: o voto. Diante da urna, o cidadão já não escolhe um projeto de
futuro, mas uma arma de destruição. É aí que a armadilha do ressentimento se
institucionaliza. Quando digitamos o número de um candidato notoriamente ruim,
incapaz ou moralmente falido, apenas pelo prazer mórbido de ver o outro —
igualmente nocivo — ser derrotado, operamos na mais pura essência do
autoengano. Justificamos a escolha do nosso próprio carrasco sob o pretexto de
que ele nos vingará do vizinho. Apertamos a confirmação na urna e bebemos, de
bom grado, o cálice de um governo medíocre, acreditando ingenuamente que a
nossa dose de sofrimento será menor do que a punição infligida ao rival. É o
voto transformado em suicídio coletivo: tomamos o veneno esperando que a
oposição morra.
Nutrimos
esse ódio de estimação como se ele fosse uma armadura ou uma virtude cívica.
Acordamos pensando no contra-ataque retórico e dormimos ensaiando o linchamento
virtual do dia seguinte. No entanto, enquanto a mente desenha o cenário ideal
em que o inimigo finalmente cai em desgraça, a realidade do corpo cobra o seu
preço. A gastrite ataca, o sono foge, a paciência com os filhos esgota-se na
primeira palavra. Guardar ressentimento é exatamente como tomar veneno
esperando que o outro morra.
A
ironia da política moderna é que o alvo da nossa fúria sequer sabe da nossa
existência. O governante corrupto continua usufruindo de seus privilégios, o
militante profissional do outro espectro segue lucrando com o engajamento do
algoritmo, e o vizinho que ostenta a bandeira do partido rival dorme o sono dos
justos. Enquanto isso, nós — os guardiões da indignação — consumimos o frasco
inteiro de cicuta, dia após dia, acreditando que a nossa azia destruirá o
palácio do opressor.
Para
os que tentam equilibrar a paixão política com a fé cristã, o paradoxo se torna
ainda mais agudo. O Evangelho, tantas vezes usado como slogan de campanha ou
escudo moral nos debates públicos, é o primeiro a ser crucificado no altar do
pragmatismo partidário. Substitui-se o Sermão da Montanha pelo manual da
guerrilha cultural. Esquece-se, por conveniência, que a mensagem de Jesus
subverteu radicalmente a lógica do poder de sua época não ao tomar o trono de
César, mas ao se recusar a adotar os métodos de César.
As
Escrituras não deixam margem para o ódio pedagógico ou para o rancor
justificável. Quando o Evangelho nos exorta a “orar pelos que vos perseguem” e
a “perdoar setenta vezes sete”, não o faz por capricho místico ou passividade
covarde, mas por um profundo conhecimento da psicologia humana. O perdão
cristão nunca foi uma absolvição jurídica dos erros alheios, nem uma validação
da injustiça social. Ele é, antes de tudo, um ato de legítima defesa
espiritual. É a recusa solene em permitir que a maldade do outro determine a
qualidade do meu próprio coração.
Quando
Cristo adverte que “o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o
que sai dela”, Ele está apontando diretamente para o veneno destilado nas
discussões inflamadas e nos julgamentos sumários que fazemos em nome do bem
comum. Ao transformarmos a arena pública em um campo de extermínio moral,
acabamos por praticar exatamente os vícios que juramos combater. O puritano
que odeia o corrupto com fúria cega torna-se, ele mesmo, corrupto na alma.
A
verdadeira emancipação política e espiritual começa quando paramos de beber o
cálice da amargura diária. Romper com esse ciclo não significa alienação ou
covardia diante das injustiças do mundo. Significa compreender que a
transformação social genuína não nasce da bílis, mas da justiça temperada pela
misericórdia. Exigir integridade dos governantes e lutar por um país mais justo
são deveres legítimos, mas que perdem todo o sentido se, no processo, nos
tornarmos monstros moldados pelo rancor.
Ao
final do dia, as telas se apagarão, as legislaturas passarão e os heróis e vilões políticos de hoje serão as notas de rodapé dos livros de História de amanhã. O
veneno que ingerimos voluntariamente na esperança de punir o mundo, contudo,
deixará marcas profundas em nossa própria carne e nas nossas relações mais
íntimas. Que possamos, antes que o frasco esvazie de vez, redescobrir a
sobriedade do Evangelho: aquela que nos ensina a combater o bom combate sem
perder a capacidade de estender a mão, lembrando que a paz de uma nação começa,
invariavelmente, na paz do espírito.
Saudações,
Kurt Hilbert







