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domingo, 5 de abril de 2026

O Túmulo Estava Vazio


A Páscoa é uma das datas mais conhecidas do calendário cristão, mas infelizmente também é uma das mais mal compreendidas. Para muitos, ela se resume a tradições, símbolos e costumes. Porém, a Páscoa, em sua essência, carrega a mensagem mais profunda e transformadora de toda a História.

A palavra “Páscoa” vem do termo hebraico Pessach, que significa “passagem”. Essa palavra nasceu ainda no Antigo Testamento, quando o povo de Israel era escravo no Egito. Deus, então, levantou Moisés para libertar o seu povo. Naquela ocasião, antes da última praga, Deus instituiu a primeira Páscoa.

Cada família deveria sacrificar um cordeiro e passar o sangue nos umbrais das portas. Naquela noite, o juízo de Deus passaria sobre o Egito, mas ao ver o sangue, “passaria por cima” daquela casa. O sangue do cordeiro era o sinal de livramento. Não era o mérito das pessoas dentro da casa que as salvava, mas o sangue do cordeiro.

Desde então, a Páscoa passou a ser celebrada todos os anos pelos judeus, como memória da libertação da escravidão no Egito. Mas aquela celebração apontava para algo maior. Ela era uma sombra de uma realidade futura.

Séculos depois, essa realidade se cumpriu em Jesus Cristo.

Quando chegamos ao Novo Testamento, vemos que Jesus morreu justamente no período da Páscoa. Isso não foi coincidência. Ele é o verdadeiro Cordeiro de Deus. Assim como o cordeiro era sacrificado no Egito, Cristo foi entregue por nós. Assim como o sangue protegia da morte, o sangue de Cristo nos livra do juízo de Deus.

A sexta-feira que muitos chamam de “Sexta-feira Santa” ou “Sexta-feira da Paixão” nos lembra exatamente isso. Foi o dia em que Jesus foi traído, humilhado, espancado, zombado, coroado com espinhos e levado para a cruz.

Ele não morreu como vítima de circunstâncias. Ele se entregou voluntariamente.

Na cruz, Jesus carregou o pecado do seu povo. Ele recebeu sobre si a justa ira de Deus contra o pecado. Aquilo que nós merecíamos, Ele tomou sobre si. Ele foi crucificado entre dois criminosos, mostrando que estava sendo contado entre os pecadores.

E ali acontece algo profundamente revelador.

Um daqueles homens reconhece sua própria culpa. Ele confessa que está sendo punido justamente, mas que Jesus não havia cometido pecado. E então ele clama: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reino”.

Jesus responde: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Ali nós vemos, de forma clara, o que é a fé salvadora.

Aquele homem não teve tempo de fazer boas obras, não teve tempo de “se consertar”, não teve tempo de provar nada. Ele apenas creu. Mas essa fé não nasceu dele mesmo. Um coração endurecido não reconhece Cristo dessa forma.

O que aconteceu ali foi uma obra de Deus. O Espírito Santo regenerou aquele homem, abriu seus olhos, produziu arrependimento e fé. Ele reconheceu seu pecado, reconheceu quem Cristo era e confiou nele.

Isso é salvação.

A fé não é uma decisão autônoma do ser humano. Ela é um dom de Deus. É Deus quem convence do pecado, da justiça e do juízo. É Deus quem dá vida ao que estava morto espiritualmente.

E é por isso que a salvação é inteiramente pela graça.

Mas a história não termina na cruz.

Se a sexta-feira aponta para o sacrifício, o domingo aponta para a vitória.

O domingo de Páscoa, também chamado de domingo da ressurreição, celebra o fato de que Jesus não permaneceu morto. Ao terceiro dia, Ele ressuscitou. A morte foi vencida. O pecado foi derrotado. O túmulo está vazio.

A ressurreição é a confirmação de que o sacrifício foi aceito. Se Cristo tivesse permanecido morto, não haveria esperança. Mas Ele vive.

E porque Ele vive, há vida para aqueles que estão nele.

A Páscoa, portanto, não é sobre tradição, não é sobre costumes, não é sobre símbolos. É sobre redenção. É sobre substituição. É sobre um Cordeiro que morreu no lugar de pecadores.

É sobre um Salvador que vive.

E isso nos leva à pergunta mais importante: o que você faz com isso?

A mensagem da Páscoa não é apenas para ser admirada, é para ser recebida. Cristo morreu por pecadores. Ele ressuscitou para justificar aqueles que creem.

Mas essa fé não é apenas um assentimento intelectual. Não é apenas dizer “eu acredito que isso aconteceu”. É confiar em Cristo como único e suficiente Salvador.

É reconhecer que você é pecador, incapaz de se salvar, e depender completamente da obra de Jesus.

É abandonar toda confiança em si mesmo.

E isso não acontece pela força da vontade humana. É Deus quem chama, é Deus quem transforma, é Deus quem concede arrependimento e fé.

Por isso, se hoje você compreende essa mensagem, se hoje você percebe o seu pecado, se hoje você vê Cristo como precioso, não endureça o seu coração.

Clame a Deus.

Peça por misericórdia.

Confie em Cristo.

Porque a verdadeira Páscoa não é apenas uma data no calendário.

É a passagem da morte para a vida.

E isso só acontece por meio de Jesus Cristo.

 

Solus Christus

 

(um texto de Alex Mendes)

domingo, 29 de março de 2026

Graça e Paz Multiplicadas


2º Pedro 1:2

Graça e paz lhes sejam multiplicadas, pelo pleno conhecimento de Deus e de Jesus, o nosso Senhor.

 

Segundo o Evangelho, graça é o amor e o favor imerecidos de Deus, que Ele concede à humanidade por meio de Jesus Cristo, oferecendo salvação, perdão e força espiritual, sem que, por parte do ser humano, haja algum merecimento neste sentido.  

E paz, também segundo o Evangelho, é um fruto do Espírito e um estado de reconciliação, harmonia e segurança, vindo de Deus em direção ao homem, algo que vai além do entendimento humano, mas que, em sendo recebido e vivido, proporciona também uma vida harmônica com o próximo. É, ainda, a presença de Jesus, chamado de “o Príncipe da Paz”.  

E multiplicação, olhando da perspectiva espiritual, é fazer surgir muito do pouco, é suprir de forma sobrenatural o pouco do natural que há, é inundar a experiência humana da presença operacional divina, como ocorreu quando Jesus, de poucos pães e peixes, fez surgir alimento para uma multidão.

Tudo isso, segundo o apóstolo Pedro, nos vem pelo pleno conhecimento de Deus e de Jesus.

Quem não quer a graça divina atuando em sua vida?

Quem não quer a paz divina inundando o coração?

E quem não quer o pleno conhecimento de Deus e de Jesus?

Pois bem, este pleno conhecimento também é, em parte, um dom divino, pois, segundo o apóstolo Paulo em sua carta aos irmãos da igreja em Corinto, a palavra de conhecimento é uma manifestação do Espírito na vida de quem tem fé (1º Coríntios 12:7-11).

Deste a antiguidade Deus Se manifestou ao ser humano conforme este O podia compreender. A promessa divina é que Se daria a conhecer e Se manifestaria ao homem: “Se acatarem a minha repreensão, eu lhes darei um espírito de sabedoria e lhes revelarei os meus pensamentos (Provérbios 1:23). Conhecimento e sabedoria andam de mãos dadas, pois são complementares.

E tudo isso tem a ver com a vontade de Deus, pois o que nos poderia ser dado que não fosse da Sua vontade? E veja que interessante: a vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1º Timóteo 2:4). E o que – ou Quem – é a verdade? Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim (João 14:6).

Assim, conhecer a Jesus é o modo pelo qual conhecemos graça e paz multiplicadas!

E como O conhecemos?

Primeiramente, pela comunhão com Deus, através da nossa oração. Sim, quando respondemos ao Seu chamado, à Sua vinda ao nosso encontro, ao Seu convite para o seguimento de Cristo, e quando esta resposta se dá pela oração, é dado o primeiro passo. Portanto, o primeiro passo: orar!

Depois, buscar a Sua Palavra. E esta tem origem, de forma prática e palpável, como mídia à nossa disposição, pela Bíblia. Sim, a Bíblia é a mídia/meio que o Senhor utiliza para, em primeira instância, nos falar. Ali está a Sua Palavra! E a Palavra é Cristo!

No princípio era aquele que é a Palavra. Ele estava com Deus, e era Deus. Ele estava com Deus no princípio. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram (João 1:1-5).

Eu não esqueço de relembrar esta passagem! Ali nos é mostrado, de forma inequívoca, que, sim, a Palavra é Jesus Cristo, Deus feito gente, por meio de Quem tudo é, sendo vida e luz para os homens, luz que brilha mesmo quando há trevas, luz invencível, plena, absoluta e eterna!

Só saber disso que está nos dois parágrafos acima já é um baita passo para o pleno conhecimento de Deus e de Jesus!

Mas este é só o começo...

Assim como o começo, para você que aqui lê, pode ter sido agora – talvez só agora! – de ter se dado conta desta realidade inequívoca!

Então vem o convite, sempre atual e presente: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” (Mateus 16:24-26).

E ainda: Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8:31-32).

Siga a Jesus... permaneça em Sua Palavra... e tenha também a experiência de viver graça e paz multiplicadas!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert

domingo, 22 de março de 2026

Amar Como Cristo Amou, Mesmo Quando Não Há Retorno


 

Há algo na vida cristã que sempre me marcou profundamente, algo que considero parte da minha essência, e eu sei que isso não é mérito meu. Não é da minha índole natural, não nasceu da minha força, não veio de boas intenções humanas. É fruto da regeneração, é obra do Espírito Santo transformando um coração que, por si mesmo, só saberia olhar para si, defender-se, e buscar o próprio interesse.

Eu sei das minhas falhas. Eu sei dos meus pecados. Sei das áreas da minha vida em que ainda não alcancei a maturidade necessária, das coisas que ainda preciso abandonar, ajustar e vencer. Como todo cristão regenerado, carrego a consciência de que preciso, a cada dia, morrer mais para o pecado e viver mais para Cristo. Mas, mesmo entendendo minha imperfeição, há um aspecto da vida cristã que sempre ardeu forte em mim: fazer o bem ao próximo sem esperar absolutamente nada em troca.

E é aqui que, muitas vezes, surge o conflito com a mentalidade do mundo e, às vezes, até com a mentalidade de cristãos que ainda não compreenderam plenamente essa verdade. Não poucas vezes ouvi:

“Para de ser bobo”.

“Você faz demais pelos outros”.

“As pessoas se aproveitam de você”.

“Ninguém merece tanto”.

“Você precisa pensar mais em você”.

“Aprende a dizer não, o não é libertador”.

Essa última frase, então, virou lema de uma geração. Para muitos, dizer “não” é a chave para uma vida equilibrada, saudável e cheia de paz.

Mas quando eu olho para as Escrituras, não consigo enxergar isso assim.

Não consigo ver o “não” como libertador.

Pelo contrário, para mim, o eu é que precisa ouvir o não.

A verdadeira libertação não vem quando digo “não” aos outros, mas quando digo “não” a mim mesmo, às minhas vontades, ao meu conforto, ao meu ego, e digo “sim” ao chamado de Cristo para amar.

E quando falo isso, sempre tem alguém que insiste:

“Mas a pessoa não merece”.

“Ela nem reconhece o que você faz”.

“Ela não retribui”.

“Ela faz mal para os outros”.

“Ela não tem maturidade”.

“Ela não tem nada para te oferecer”.

E é exatamente aqui que o Evangelho brilha.

Porque o nosso Senhor não fez o bem a quem era bom. Ele não entregou Sua vida por quem amava. Ele não Se sacrificou por quem tinha algo a oferecer. Cristo morreu por quem não merecia. Cristo amou quem não amava. Cristo Se entregou por quem não tinha nada para retribuir.

E Paulo deixa isso claro em Romanos 5:6-10: “Porque Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente alguém morreria por um justo, pois poderá ser que pelo homem bom alguém ainda ouse morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”.

Cristo morreu por fracos, Cristo morreu por ímpios, Cristo morreu por pecadores, Cristo morreu por inimigos.

Ele não morreu por gente que O tratava bem, que O honrava, que O amava. Ele morreu por quem cuspia em Sua graça, por quem rejeitava Sua bondade, por quem não tinha nada para oferecer senão inimizade.

Se Ele fez isso quando éramos Seus inimigos, como poderia eu exigir que as pessoas “mereçam” meu amor para que eu as ame?

É claro que não estou dizendo que eu faço o bem para inimigos pessoais o tempo todo, isso é difícil, raro e exige graça extraordinária. Mas mesmo no cotidiano, fazemos o bem para pessoas que amamos, gente querida, próxima, pela qual temos carinho, mas que, por imaturidade espiritual, falta de regeneração ou limitação humana, simplesmente não consegue retribuir. Às vezes a única coisa que ela pode oferecer é um “Valeu, obrigado, hein!” E está tudo bem. Amar assim é imitar Cristo.

E esse é um ponto fundamental: às vezes aquela pessoa não retribui não porque é ingrata, mas porque ainda não alcançou o nível de maturidade que, pela graça de Deus, nós já alcançamos. Não porque somos melhores, mas porque o Espírito Santo já trabalhou em nós aquilo que ainda vai trabalhar nela. Talvez você tenha caminhado alguns degraus a mais na santificação, e isso é pura graça, não mérito.

Paulo trata disso em Romanos 15:1: “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as fraquezas dos fracos e não agradar a nós mesmos”.

Os fortes existem para carregar os fracos, não para exigir que eles sejam fortes também.

Deus nos dá maturidade não para sermos soberbos, mas para servirmos melhor.

E logo em seguida, Paulo cita o Salmo 69:9: “O zelo da tua casa me consumirá”.

Em João 2:17, os discípulos entendem que esse zelo se cumpre em Cristo.

O zelo pela casa do Pai, que é zelo pela adoração verdadeira, sempre nos leva a abrir mão de nós mesmos para o bem do próximo.

Porque amar a Deus de todo o coração (Mateus 22:37-40) inevitavelmente transborda em amar o próximo, e amar o próximo significa, quase sempre, abrir mão de algo em nosso favor para abençoar alguém que não tem nada a nos oferecer.

O mundo não entende isso.

A carne não entende isso.

O coaching moderno não entende isso.

Mas o regenerado entende.

O amor verdadeiro não nasce da autodeterminação, nasce do Espírito Santo.

É Ele quem nos faz amar o que não amávamos, servir quem não retribui, fazer o bem sem esperar retorno, e agir como Cristo agiu quando nós ainda éramos incapazes de responder ao amor d’Ele.

E quando vivemos assim, não estamos nos tornando bobos, estamos nos tornando parecidos com Jesus.

Não estamos sendo explorados, estamos sendo moldados.

Não estamos perdendo tempo, estamos pregando sem palavras.

Porque, sim, eu sempre acreditei que pregar exige palavras, e é verdade. Mas quando alguém já ouviu sobre Jesus, já sabe que Ele morreu na cruz, já tem alguma noção do Evangelho, então o seu modo de agir prega Cristo. A sua atitude revela o amor de Deus de uma forma que palavra nenhuma alcança.

Quando você ama alguém que não pode te oferecer nada, você está fazendo exatamente o que Cristo fez quando você não podia oferecer absolutamente nada a Ele.

E isso, isso sim, é libertador!

Libertador não porque eu digo “não” aos outros, mas porque digo “não” ao meu ego, e “sim” ao chamado de Cristo.

Libertador porque já não dependo do retorno humano, mas da graça divina.

Libertador porque amar assim é viver o Evangelho na prática.

E, pela graça, enquanto o Espírito Santo trabalha em nós, vamos entendendo que a maturidade cristã não nos dá o direito de exigir retorno, mas a capacidade de amar sem retorno.

Essa é a vida que Cristo viveu por nós.

Essa é a vida que Ele nos chama a viver pelos outros.

Que Deus nos ajude!

 

(um texto de Alex Mendes)

domingo, 15 de março de 2026

O Que Aprendemos Com os Três Amigos de Jó?


 

Os três amigos de Jó, Elifaz, Bildade e Zofar, são historicamente conhecidos por fazerem longos discursos que resultaram em sua condenação por Deus (Jó 42:7-9). Em certo momento, Jó, cansado da retórica inútil deles, disse-lhes: “Tenho ouvido muitas coisas como estas. Todos vocês são consoladores que só aumentam o meu sofrimento” (Jó 16:2). Mas será que eles erraram em tudo? Talvez tenham acertado em algumas coisas.

Os amigos de Jó fizeram pelo menos três coisas certas que podem ser vistas em Jó 2:11-13. Primeiro, eles o procuraram quando ele estava sofrendo. Segundo, eles tiveram empatia por ele: “De longe eles levantaram os olhos e não o reconheceram. Então ergueram a voz e choraram. E cada um, rasgando o seu manto, lançava pó ao ar sobre a cabeça” (versículo 12). Terceiro, eles passaram tempo com ele. O versículo 13 afirma que eles estiveram com ele por sete dias antes de darem seu conselho. Eles se compadeceram do amigo em silêncio.

Mas o silêncio não durou para sempre, e esses três homens fizeram uma série de discursos a Jó, registrados nos capítulos 4 a 25. Os discursos dos três amigos de Jó incluem muitas imprecisões, principalmente sobre o motivo pelo qual Deus permite que as pessoas sofram. A crença geral deles era que Jó estava sofrendo porque tinha feito algo errado. Como resultado, eles repetidamente incentivaram Jó a admitir seu erro e a se arrepender para que Deus o abençoasse novamente.

Deus condenou claramente o conselho deles: “A minha ira se acendeu contra você [Elifaz] e contra os seus dois amigos, porque vocês não falaram a meu respeito o que é reto, como o meu servo Jó falou” (Jó 42:7). Por esse motivo, devemos sempre ter cuidado com a interpretação de versículos individuais de Jó. Não é sensato extrair um versículo isolado do livro de Jó e usá-lo para entender Deus – se o versículo vier de um discurso de Elifaz, Bildade ou Zofar, então não temos garantia de que ele reflete com precisão o caráter de Deus. Como acontece com qualquer versículo, devemos observar o contexto.

Embora, no final, Jó tenha errado ao exagerar a sua justiça (Jó 42:1-6), ele não havia feito nada para merecer o seu sofrimento. As provações pelas quais Jó passou não estavam relacionadas ao seu comportamento. Em vez disso, Deus usou os sofrimentos como um teste e como parte de Seu plano soberano na vida de Jó. Após o período de sofrimento de Jó, Deus o abençoou com o dobro do que ele tinha antes (Jó 42:10).

Muito pode ser aprendido com o exemplo de Jó e seus amigos. Quando soubermos que um amigo está sofrendo, podemos seguir o exemplo positivo desses homens indo até a pessoa, chorando com ela e passando algum tempo juntos. Nossa presença física com um amigo que está sofrendo pode ser um grande conforto por si só, mesmo que não tenhamos palavras para dizer.

Além disso, podemos adquirir sabedoria com o que os amigos de Jó fizeram de errado. Não devemos presumir que os problemas são o sinal certo do julgamento de Deus (cf. João 9:1-3). Em vez de dizer a uma pessoa que está sofrendo para admitir seu erro e se arrepender (quando não sabemos o motivo do sofrimento), podemos nos unir e incentivar um amigo a perseverar fielmente, sabendo que Deus vê a nossa dor e tem um propósito para ela.

Quando voltamos o nosso foco para Deus, podemos oferecer grande incentivo e esperança aos necessitados, ajudando os que sofrem a ver Deus em ação. Essa é uma ótima aplicação de Romanos 12:15: “Chore com os que choram”. Quando estamos dispostos a entrar na dor de um amigo que está sofrendo, seguimos o exemplo de Jesus, que veio para suportar nossa dor e sofrer em nosso lugar. Nossa ajuda aos necessitados é, em última análise, uma forma de servir a Cristo (Mateus 25:40).

 

Fonte: www.GotQuestions.org/Portugues

domingo, 8 de março de 2026

A Cultura do Cancelamento nas Denominações


A cultura do cancelamento tem se tornado uma realidade preocupante em diversos contextos, inclusive no meio religioso. Muito além de um simples desentendimento de opiniões, tratase de um mecanismo de poder cuja finalidade principal não é a busca da verdade, mas a proteção de estruturas e posições estabelecidas. Quando esse fenômeno se infiltra em comunidades de fé, seus efeitos espirituais e relacionais podem ser devastadores.

No ambiente religioso, a cultura do cancelamento costuma ser acionada quando alguém se levanta para dizer verdades incômodas, que desafiam o status quo e expõem incoerências entre o discurso e a prática. Não se debate mais se o que foi dito é verdadeiro ou falso; a questão central passa a ser quem foi contrariado. A verdade deixa de ser o foco, e a preservação do poder se torna a prioridade. Assim, o objetivo passa a ser destruir a credibilidade da pessoa, manchar sua reputação e isolála socialmente, de modo que ninguém de respeito queira ser associado a ela.

Historicamente, esse tipo de cancelamento não nasce dos marginalizados, mas das elites — aqueles que detêm influência, recursos e autoridade, seja na sociedade em geral, seja nas estruturas religiosas. Sempre que alguém, ao falar a verdade, ameaça esse poder consolidado, o mecanismo do silenciamento é acionado. Sob uma fachada piedosa, muitas vezes em nome da “unidade” ou da “manutenção da doutrina”, o que está realmente em jogo é a preservação de controle e a recusa em prestar contas por decisões equivocadas.

Nesse contexto, a verdade se torna a primeira vítima. Deixase de discutir fatos, princípios e Escrituras, para atacar motivações, caráter e honra. Em vez de se perguntar: Isso é verdade? O que Deus está tentando nos mostrar através dessa mensagem?”, passase a perguntar: Como podemos desqualificar essa pessoa para que ninguém mais a leve a sério? O resultado é um ambiente em que a reconciliação se torna quase impossível, porque reconhecer erros exigiria admitir que houve injustiça — passo que muitos se recusam a dar.

Quando uma comunidade aceita essa lógica, a cultura do cancelamento tende a se tornar um fenômeno auto-perpetuante. Cada vez menos pessoas se arriscam a falar. Para sobreviver dentro do sistema, muitos passam a conviver com mentiras convenientes, silenciando a própria consciência e se acomodando a narrativas oficiais. A curto prazo, isso pode dar uma aparência de estabilidade. A longo prazo, porém, mina a credibilidade da própria denominação. Quando chegam tempos de crise real, poucos estarão dispostos a sofrer por uma mensagem que, no fundo, sabem estar misturada com omissões e falsidades. Ninguém entrega sua vida por aquilo que reconhece como mentira.

A história da fé mostra que perseguições autênticas sempre foram motivadas pela verdade. Pessoas foram pressionadas, ameaçadas e até mortas porque insistiram em testemunhar sobre o que viram, viveram e creram. Não foram canceladas por capricho, mas porque suas palavras e vidas expunham sistemas injustos e estruturas corrompidas. É justamente por isso que muitos aceitaram perder tudo: reputação, bens, profissão, posição social e, em alguns casos, a própria vida. Eles sabiam que a verdade que defendiam valia mais do que qualquer segurança terrena.

Em contraste, uma denominação que aprende a conviver com mentiras “funcionais” — aquelas que garantem paz aparente, poder e estabilidade organizacional — corre o risco de ruir quando for realmente provada. Se, diante de pressões externas ou internas, sua postura for silenciar os que alertam, rotulálos como divisores e afastálos dos púlpitos e espaços de influência, ela estará, na prática, educando seus membros a preferir conveniência a convicção. E, quando chegar o momento de pagar um preço alto pela fé, muitos lembrarão: Mas nós mesmos sempre toleramos e protegemos mentiras”. E não estarão dispostos a sofrer por algo assim.

Por isso, em vez de cancelar, uma comunidade saudável busca ouvir. Em vez de reagir com desqualificação, procura discernir: “Há algo verdadeiro, ainda que desconfortável, no que está sendo dito? O que precisamos confessar, ajustar, restaurar?” Isso não significa aceitar qualquer discurso acrítico, mas reconhecer que a voz profética muitas vezes soa áspera, inconveniente e desestabilizadora. O problema não é o desconforto em si, mas o que fazemos com ele.

Ao mesmo tempo, aqueles que sofrem o cancelamento por defender convicções de fé podem encontrar conforto na experiência de outros que passaram por caminhos semelhantes. Muitos testemunhos ao longo da história revelam que, quanto mais a oposição se intensifica, mais cresce a consciência de que a redenção está próxima. Há uma paz peculiar em saber que o sofrimento não é resultado de intriga vazia, mas fruto da fidelidade a princípios que se crê serem divinos. A perda de honra, posição ou estabilidade pode doer profundamente, mas também pode se tornar uma escola de intimidade com Deus.

Quando alguém aceita pagar esse preço, muitas vezes descobre uma experiência de fé que não teria conhecido em tempos de conforto. Perdas materiais, profissionais e sociais, embora significativas, são relativizadas diante da descoberta de um relacionamento mais profundo com o Eterno. É como se tudo aquilo que antes era visto como ganho passasse a ser considerado como perda, comparado ao privilégio de conhecer mais plenamente a vontade de Deus e caminhar em obediência à Sua voz.

Essa perspectiva também redefine o que significa sucesso na vida espiritual. Em vez de buscar conforto, aceitação e estabilidade nesta vida, a prioridade passa a ser a fidelidade à consciência iluminada pela fé, mesmo que isso custe algo valioso. A vida neste mundo é breve; a promessa de vida eterna relativiza qualquer sacrifício necessário para permanecer íntegro. O verdadeiro prêmio não é uma posição respeitada, uma casa confortável ou uma reputação intacta, mas uma herança eterna ao lado de Deus.

Diante de tudo isso, surge uma chamada clara para as denominações: é necessário defender a liberdade de consciência. Sem essa liberdade, ninguém pode responder de forma genuína às mensagens espirituais que recebe. Não basta falar em arrependimento, entrega e conversão, se, ao mesmo tempo, se apoia ou se justificam mecanismos que pressionam consciências por meio de mandatos externos, coerção ou intimidação. A coerência exige que quem proclama um chamado à decisão também defenda o espaço necessário para que essa decisão seja tomada de forma livre.

Há, ainda, uma oportunidade preciosa: reconhecer erros passados. Quando lideranças admitem que apoiaram medidas ou práticas que feriram consciências, marginalizaram fieis e desperdiçaram oportunidades de testemunho, abrem a porta para algo poderoso: arrependimento genuíno, restauração de confiança e um novo começo. Ao garantir que não repetirão a mesma postura de autoritarismo e cancelamento, podem se tornar referência para muitos que hoje desconfiam de estruturas religiosas, mas ainda anseiam por um lugar onde a liberdade de consciência seja respeitada.

Uma denominação que assume essa postura envia ao mundo uma mensagem distinta: “Aqui valorizamos a verdade mais do que a nossa imagem. Aqui a consciência não será atropelada por conveniência institucional. Aqui não cancelaremos aqueles que, em sinceridade, apontarem incoerências”. Isso não apenas restaura a credibilidade interna, como também atrai pessoas que, cansadas de sistemas opressores, buscam um ambiente onde fé e liberdade caminhem juntas.

Por fim, para quem sofre a dor de ser silenciado, marginalizado ou mal interpretado por amor à verdade, permanece uma certeza: nenhuma perda neste mundo se compara ao risco de perder a eternidade. Ser obediente à voz da consciência, crendo que ela é iluminada por Deus, durante esses poucos anos de vida, não é um preço alto demais diante da promessa de vida eterna. A cultura do cancelamento pode impor rótulos, distorcer histórias e tentar apagar vozes, mas não tem poder sobre a alma que permanece ligada a Deus.

Em um cenário em que cancelamento e medo tentam moldar comportamentos, o chamado é claro: buscar a verdade, honrar a consciência, ouvir com humildade e rejeitar a lógica de destruir quem discorda. Comunidades que fizerem essa escolha poderão atravessar crises profundas sem desmoronar, porque estarão fundamentadas não em estratégias de poder, mas na integridade, na transparência e na confiança de que vale mais sofrer por aquilo que é verdadeiro do que prosperar à sombra de mentiras confortáveis.

 

(um texto enviado por Carlos Caleri)

domingo, 1 de março de 2026

Mulher Empreendedora na Bíblia?


 

Sabemos que a Bíblia foi escrita num tempo onde o patriarcado imperava em todos os lugares, afinal, são escritos que têm de dois a três milênios de idade.

A minoração do patriarcado, pelo menos no mundo ocidental, é coisa de um século, aproximadamente. Hoje vivemos num regime familiar mais misto, com o patriarcado se sobressaindo nalguns lugares, o matriarcado se sobressaindo noutros e, em muitos casos, com uma liderança/administração compartilhada entre ambos os gêneros.

Este texto não quer entrar em méritos nem debates sobre o que é mais acertado ou não; aqui desejo apenas mostrar como na Bíblia – ainda que com letras patriarcais – já havia a abertura para o empreendedorismo feminino.

Em Cristo, sabemos, não há diferenciação entre gêneros, pois que Jesus foi inclusivo para com as mulheres, tendo feito isso num Oriente patriarcal, há dois mil anos. Ele recebia, inclusive, sustento por parte delas, como as Escrituras atestam: Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Suzana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens (Lucas 8:1-3). Ainda, na doutrina dos apóstolos, nos fica bem claro que a diferenciação entre homens e mulheres tornou-se obsoleta: Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus (Gálatas 3:26-28).

Mas vamos ao texto que fala do empreendedorismo feminino, lá no livro dos Provérbios – sim, já no Antigo Testamento se falava disso! Uma curiosidade nada coincidente é que o livro dos Provérbios inicia louvando a sabedoria e finaliza louvando a mulher!

Provérbios 31:10-31 nos diz assim:

 

Uma esposa exemplar; feliz quem a encontrar! É muito mais valiosa que os rubis.

Seu marido tem plena confiança nela e nunca lhe falta coisa alguma.

Ela só lhe faz o bem, e nunca o mal, todos os dias da sua vida.

Escolhe a lã e o linho e com prazer trabalha com as mãos.

Como os navios mercantes, ela traz de longe as suas provisões.

Antes de clarear o dia ela se levanta, prepara comida para todos os de casa, e dá tarefas às suas servas.

Ela avalia um campo e o compra; com o que ganha planta uma vinha.

Entrega-se com vontade ao seu trabalho; seus braços são fortes e vigorosos.

Administra bem o seu comércio lucrativo, e a sua lâmpada fica acesa durante a noite.

Nas mãos segura o fuso e com os dedos pega a roca.

Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.

Não receia a neve por seus familiares, pois todos eles vestem agasalhos.

Faz cobertas para a sua cama; veste-se de linho fino e de púrpura.

Seu marido é respeitado na porta da cidade, onde toma assento entre as autoridades da sua terra.

Ela faz vestes de linho e as vende, e fornece cintos aos comerciantes.

Reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro.

Fala com sabedoria e ensina com amor.

Cuida dos negócios de sua casa e não dá lugar à preguiça.

Seus filhos se levantam e a elogiam; seu marido também a elogia, dizendo: “Muitas mulheres são exemplares, mas você a todas supera”.

A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao SENHOR será elogiada.

Que ela receba a recompensa merecida, e as suas obras sejam elogiadas à porta da cidade.

 

Ainda que o texto inicie louvando a excelência da mulher como esposa e cuidadora da família, desenrola-se mostrando-a como administradora não só da sua casa, como do seu comércio, dos seus negócios e dos seus empreendimentos.

Este texto proverbial, como tantos textos de sabedoria do Antigo Oriente Médio, foi escrito em forma de poesia.

A mulher sendo vista como empreendedora nas Escrituras – e nas mais antigas, antes mesmo de Jesus incluir todas e todos (para usar a expressão em voga em nossos dias) na mesma categoria: a de filhas e filhos de Deus.

Pois é... quem diria?!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert