Oséias
5:4
“Suas ações não lhes permitem voltar para o seu Deus. Um espírito de prostituição está no coração
deles; não reconhecem o SENHOR”.
O profeta Oséias estava
incumbido de denunciar a prostituição espiritual de Israel.
Esta era uma expressão
que dava a clara ideia do que queria dizer: significava que o povo estava abandonando
a Deus, pretendendo enganá-Lo – como se isso fosse possível! –, e entregar-se a
cultuar outras divindades comuns aos povos daquela época e geografia.
Era, espiritualmente falando,
um ato de prostituição. Deus colocava-Se – de forma figurada – como o marido do
Seu povo, que Ele havia resgatado do Egito e introduzido na “terra prometida”,
onde “manava leite e mel”. Em outras palavras, os israelitas mostravam-se
ingratos, agora que pensavam encontrar-se em condições seguras e prósperas.
Esta advertência do
profeta era dirigida aos sacerdotes, à família real e ao povo.
Aos sacerdotes, pois
eram os primeiros que deveriam ser zelosos dos mandamentos de Deus, mas eram os
primeiros a profaná-los. Além disso, eram licenciosos e permitiam que se
cultuassem outras divindades e, mais do que isso, não raramente participavam
como agentes atuantes destes cultos, erigindo altares debaixo de árvores frondosas
– que eram locais tidos como propícios a estas práticas –, bem como erigindo
colunas sagradas, que eram marcos de homenagem às divindades pagãs.
A advertência era também
à família real, pois, como dirigentes da nação, tinham a obrigação de zelar
pelo cumprimento das leis – e lembramos que a Lei de Moisés era tanto de
caráter religioso como político/social. Mas a família real não se importava com
isso, antes, oprimiam o povo e se regalavam com a condição da realeza.
E, por fim, a
advertência era dirigida ao povo em geral, pois, não obstante a negligência dos
sacerdotes e da realeza, isso não era razão para que o povo simplesmente
seguisse essa devassidão, pois tinham conhecimento dos mandamentos e tinham
obrigação moral e comportamental com eles.
Assim, a advertência –
ao mesmo tempo dura e rígida, mas também chamativa ao arrependimento e à
conversão – alcançava a todos!
A nossa Palavra para este
texto diz que “suas ações não lhes permitem
voltar para o seu Deus”. Ora, isso é de um significado profundo! Tem implicações
espirituais e psicológicas, enraizando-se no subconsciente coletivo.
Nossas ações – aquilo que
rotineiramente fazemos e a forma como nos comportamos e conduzimos – têm um
nascedouro: nossos pensamentos e compreensões. Assim, passamos a agir conforme
pensamos. Primeiro, transformamos esses pensamentos em palavras, dizendo a nós
mesmos – e aos outros – no que acreditamos e como achamos que as coisas devem
ser. Depois, impulsionados pelas próprias palavras que se tornam um testemunho
a nosso respeito, passamos a agir, passamos a produzir padrões comportamentais
e nos tornamos “assim mesmo”. Passamos a ser o que pensamos e falamos. Esse agir
se torna, com o passar do tempo, automático e reproduzido diariamente de forma
inconsciente. As nossas ações passam a ser quem somos.
E aqui entra o falar do
profeta e o efeito causado. Mesmo que a pessoa, ao ouvir a advertência
profética, quisesse mudar seu comportamento, quisesse converter-se, ela estava
tão atrelada ao processo de agir no automático, que essa forma de agir/ser se
tornava um obstáculo muito grande à mudança – era mesmo um impeditivo para tal.
A pessoa poderia até querer mudar, mas estava presa ao padrão comportamental, não
somente dela, mas de todos os que a cercavam. Daí a dificuldade de mudar; daí o
fato de ser dito que “suas ações não
lhes permitem”, pois a pessoa passa a crer que ela é “assim
mesmo”, afinal, os demais também são, e agem de igual forma.
Para mudar, é preciso quebrar o padrão; é preciso quebrar a cadeia
comportamental; é preciso romper as correntes das ações automatizadas! Afinal,
isso é conversão: é dar meia-volta em tudo, é dar alguns passos atrás e
recomeçar, é acertar um novo passo e passar a andar no novo caminho! Mas isso
demanda uma boa dose de querer e esforço!
E por que o profeta diz
que “um espírito de prostituição
está no coração deles”? O que isso quer dizer? Isso quer dizer que a pessoa
está de tal forma desconstruída e perdida em seu padrão comportamental, que é
como estar prostituída, degenerada, completamente desviada e perdida. Esse “espírito”
é um padrão mental/psicológico que se instala, causando dificuldade de romper o
padrão nocivo para reinstalar um novo padrão, uma nova forma de conduta, um
retorno ao mandamento divino.
Para romper esse padrão,
não raro precisamos recorrer ao Senhor!
Lembro de Jesus, que diz
que para a pessoa vir a Ele, deve se reconhecer como um doente psicológico/espiritual.
Somente quando assim nos reconhecemos, é que estamos abertos aos efeitos que o
Evangelho pode produzir. À pessoa que se enxerga como ela realmente é, que não tenta
se disfarçar dentro de uma pseudonormalidade, que não dissimula sua própria
falência emocional, a esta pessoa o Senhor diz: “Não são os que têm saúde que
precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores”
(Marcos 2:17).
O Evangelho é Boa Nova
para uma classe humana: os que admitem a sua própria condição e doença!
Aqueles que não se admitem
desta forma, dificilmente ouvem a Palavra do Senhor; dificilmente creem que
precisam de Jesus; “não reconhecem o
SENHOR”,
como diz o profeta Oséias.
Aqueles que não se
reconhecem como “necessitados” da graça divina através de Jesus, podem até ser
cristãos de banco de igreja, de domingos religiosos, de bom “comportamento de
hamster”, podem até estudar e discutir teologias, podem até ser “pessoas de bem”,
mas muito dificilmente se convertem a reais seguidores de Jesus Cristo, a Seus
discípulos no dia a dia!
Quem se acha autossuficiente
e se estriba nos seu próprio conhecimento, bom senso e capacidade, quem se acha
rico de si mesmo, abastado de ego, pode vir a ouvir a seu respeito: “Digo-lhes
a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: É
mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino
de Deus” (Mateus 19:23-24). É dessa falsa riqueza da autossuficiência psicológica/espiritual
que Jesus também falava. E a sequência é impactante: Ao ouvirem isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: “Neste caso, quem pode ser salvo?” Jesus olhou para eles e respondeu: “Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis” (Mateus 19:25-26).
Esta é a resposta/conclusão
que se tem diante da advertência de Oséias! Sim, somos salvos por Deus!
E podemos concluir com
as palavras do apóstolo Paulo: No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros
do meu corpo, guerreando contra a lei da
minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.
Miserável homem que eu sou! Quem me libertará
do corpo sujeito a esta morte? Graças a
Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da Lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado
(Romanos 7:22-25).
E ainda: Portanto, agora já não há condenação para os que estão
em Cristo Jesus, porque por meio de
Cristo Jesus a lei do Espírito de
vida me libertou da lei do pecado e da morte (Romanos 8:1-2).
Aí
sim, nada nos impede de voltarmos e seguir a Jesus Cristo!
Por ora é isso.
Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!
Saudações,
Kurt Hilbert







