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domingo, 1 de março de 2026

Mulher Empreendedora na Bíblia?


 

Sabemos que a Bíblia foi escrita num tempo onde o patriarcado imperava em todos os lugares, afinal, são escritos que têm de dois a três milênios de idade.

A minoração do patriarcado, pelo menos no mundo ocidental, é coisa de um século, aproximadamente. Hoje vivemos num regime familiar mais misto, com o patriarcado se sobressaindo nalguns lugares, o matriarcado se sobressaindo noutros e, em muitos casos, com uma liderança/administração compartilhada entre ambos os gêneros.

Este texto não quer entrar em méritos nem debates sobre o que é mais acertado ou não; aqui desejo apenas mostrar como na Bíblia – ainda que com letras patriarcais – já havia a abertura para o empreendedorismo feminino.

Em Cristo, sabemos, não há diferenciação entre gêneros, pois que Jesus foi inclusivo para com as mulheres, tendo feito isso num Oriente patriarcal, há dois mil anos. Ele recebia, inclusive, sustento por parte delas, como as Escrituras atestam: Jesus ia passando pelas cidades e povoados proclamando as boas novas do Reino de Deus. Os Doze estavam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, chamada Madalena, de quem haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, administrador da casa de Herodes; Suzana e muitas outras. Essas mulheres ajudavam a sustentá-los com os seus bens (Lucas 8:1-3). Ainda, na doutrina dos apóstolos, nos fica bem claro que a diferenciação entre homens e mulheres tornou-se obsoleta: Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus (Gálatas 3:26-28).

Mas vamos ao texto que fala do empreendedorismo feminino, lá no livro dos Provérbios – sim, já no Antigo Testamento se falava disso! Uma curiosidade nada coincidente é que o livro dos Provérbios inicia louvando a sabedoria e finaliza louvando a mulher!

Provérbios 31:10-31 nos diz assim:

 

Uma esposa exemplar; feliz quem a encontrar! É muito mais valiosa que os rubis.

Seu marido tem plena confiança nela e nunca lhe falta coisa alguma.

Ela só lhe faz o bem, e nunca o mal, todos os dias da sua vida.

Escolhe a lã e o linho e com prazer trabalha com as mãos.

Como os navios mercantes, ela traz de longe as suas provisões.

Antes de clarear o dia ela se levanta, prepara comida para todos os de casa, e dá tarefas às suas servas.

Ela avalia um campo e o compra; com o que ganha planta uma vinha.

Entrega-se com vontade ao seu trabalho; seus braços são fortes e vigorosos.

Administra bem o seu comércio lucrativo, e a sua lâmpada fica acesa durante a noite.

Nas mãos segura o fuso e com os dedos pega a roca.

Acolhe os necessitados e estende as mãos aos pobres.

Não receia a neve por seus familiares, pois todos eles vestem agasalhos.

Faz cobertas para a sua cama; veste-se de linho fino e de púrpura.

Seu marido é respeitado na porta da cidade, onde toma assento entre as autoridades da sua terra.

Ela faz vestes de linho e as vende, e fornece cintos aos comerciantes.

Reveste-se de força e dignidade; sorri diante do futuro.

Fala com sabedoria e ensina com amor.

Cuida dos negócios de sua casa e não dá lugar à preguiça.

Seus filhos se levantam e a elogiam; seu marido também a elogia, dizendo: “Muitas mulheres são exemplares, mas você a todas supera”.

A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao SENHOR será elogiada.

Que ela receba a recompensa merecida, e as suas obras sejam elogiadas à porta da cidade.

 

Ainda que o texto inicie louvando a excelência da mulher como esposa e cuidadora da família, desenrola-se mostrando-a como administradora não só da sua casa, como do seu comércio, dos seus negócios e dos seus empreendimentos.

Este texto proverbial, como tantos textos de sabedoria do Antigo Oriente Médio, foi escrito em forma de poesia.

A mulher sendo vista como empreendedora nas Escrituras – e nas mais antigas, antes mesmo de Jesus incluir todas e todos (para usar a expressão em voga em nossos dias) na mesma categoria: a de filhas e filhos de Deus.

Pois é... quem diria?!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Necessidade de Orar e Nunca Desistir



Lucas 18:1-8

 

Jesus contou a parábola do juiz iníquo com um propósito muito claro. Lucas já nos entrega a chave de leitura logo na abertura do texto: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer”. Não é apenas uma história interessante, nem somente uma lição moral sobre persistência. É ensino espiritual profundo sobre dependência de Deus, perseverança na fé e confiança no Senhor em meio à aflição.

A palavra traduzida como “dever” ou “necessidade” ali carrega a ideia de algo indispensável, algo que não pode ser negligenciado. No grego aparece o termo que frequentemente indica necessidade divina, aquilo que faz parte do propósito soberano de Deus. Em Lucas 9:22, por exemplo, Jesus diz que “é necessário que o Filho do Homem padeça”. Não era opcional, fazia parte do plano redentor. Da mesma forma, aqui Jesus afirma que orar sempre é algo necessário para a vida espiritual. Não é acessório da fé, é parte essencial dela.

Isso já nos confronta. Muitas vezes tratamos a oração como complemento, algo para quando sobra tempo ou quando a situação aperta. Jesus ensina o contrário. Orar continuamente é expressão de dependência real do Senhor. Quem compreende sua própria fragilidade e a grandeza de Deus entende que precisa viver em constante comunhão com Ele.

Logo depois Jesus acrescenta: “e nunca esmorecer”. A ideia aqui é não desfalecer, não perder o ânimo, não deixar o coração se render ao cansaço espiritual. A Escritura reforça essa perspectiva em vários textos. Em Lucas 2:37 vemos Ana, a profetisa, servindo a Deus com jejuns e orações noite e dia. Paulo também ensina: “orai sem cessar”. E em 2 Coríntios 4:1 ele afirma: “tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos”. A perseverança na oração não nasce da força humana, nasce da misericórdia de Deus que sustenta o seu povo.

É importante perceber o contexto da parábola. Jesus fala de uma viúva que buscava justiça contra os seus adversários. Naquele tempo, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. Muitas vezes sem proteção, sem recursos, sem influência. Ela tinha uma causa legítima, havia adversários que a oprimiam, e o único caminho era recorrer ao juiz.

O problema é que esse juiz é descrito como alguém que não temia a Deus nem respeitava homem algum. Era alguém sem compromisso com a justiça verdadeira, alguém movido apenas por interesses próprios. Inicialmente ele se recusa a atender a viúva. Porém ela insiste, continua vindo, continua pedindo, não desiste da sua causa. Até que o juiz decide julgá-la favoravelmente, não por amor à justiça, nem por compaixão, mas para se livrar da insistência dela.

Jesus então faz um contraste, não uma comparação direta. Ele não está dizendo que Deus é como aquele juiz, mas exatamente o contrário. Se até um juiz injusto, sem temor e sem compaixão, acaba respondendo diante da insistência, quanto mais Deus, que é justo, santo, amoroso e fiel, ouvirá o clamor do seu povo.

Aqui está um ponto pastoral importante. Muitas vezes pensamos que insistir em oração significa tentar convencer Deus, como se Ele fosse resistente ou indiferente. A parábola não ensina isso. Ela ensina perseverança baseada na confiança no caráter de Deus. Não oramos para mudar Deus, oramos porque Deus nos transforma enquanto oramos, alinhando nosso coração à sua vontade.

O próprio texto aponta nessa direção quando diz que Deus fará justiça aos seus escolhidos que clamam a Ele dia e noite. Esse clamor contínuo não é tentativa de manipulação divina, é expressão de fé perseverante em meio às lutas. A vida cristã envolve oposição, envolve adversários espirituais, envolve sofrimento neste mundo marcado pelo pecado. A oração constante nos mantém firmes, lembrando quem Deus é e quem nós somos diante dele.

Outra diferença marcante entre o juiz e Deus aparece na motivação. O juiz atende para não ser importunado. Deus atende porque ama. Ele não se incomoda com nossas orações sinceras, pelo contrário, há prazer em ouvir seus filhos quando oram segundo a sua vontade. Isso não significa que toda oração receberá exatamente o que pedimos, mas significa que toda oração feita em submissão ao Senhor será ouvida e respondida de acordo com sua sabedoria perfeita.

Existe também uma dimensão espiritual profunda aqui. À medida que perseveramos na oração, nosso coração vai sendo conformado à vontade de Deus. A regeneração nos dá nova disposição interior, a santificação progressiva nos ensina a desejar o que Deus deseja. Assim, nossas petições vão se tornando cada vez mais alinhadas com a Palavra. Orar sempre não apenas traz respostas externas, traz transformação interna.

No final da parábola Jesus faz uma pergunta solene: “Quando vier o Filho do Homem, achará fé na terra?” Isso mostra que perseverança na oração está ligada diretamente à perseverança na fé. Quem deixa de orar facilmente esfria espiritualmente. Quem permanece em oração constante demonstra confiança real no Senhor, mesmo quando as circunstâncias parecem contrárias.

A aplicação para nós é clara. Vivemos tempos de distração, ansiedade e imediatismo. Muitas vezes queremos respostas rápidas e soluções instantâneas. O ensino de Jesus nos chama a uma espiritualidade perseverante, dependente e constante. Orar sempre não significa repetir palavras sem reflexão, significa viver em comunhão contínua com Deus, levando a Ele nossas dores, nossas lutas, nossas alegrias e nossos anseios.

Também somos lembrados de que temos adversários. Não apenas pessoas ou circunstâncias difíceis, mas uma realidade espiritual de oposição ao povo de Deus. A oração é um dos meios pelos quais o Senhor sustenta seus filhos nessa batalha. Não é fuga da realidade, é enfrentamento espiritual com confiança no Deus soberano.

E acima de tudo, esse texto nos conduz a Cristo. Ele é quem garantiu nossa reconciliação com Deus. Pela sua obra redentora temos acesso ao Pai. Sem Cristo não há verdadeira oração aceitável, não há comunhão restaurada, não há esperança firme. A perseverança na oração nasce da certeza de que fomos alcançados pela graça e de que temos um Salvador que intercede por nós.

Por isso a necessidade não é apenas orar mais, mas voltar-se a Cristo com arrependimento e fé. Reconhecer nossa dependência, abandonar a autossuficiência, confiar no Senhor de todo o coração. Quem entende a própria condição pecaminosa e a suficiência de Cristo encontra motivação real para viver em oração constante.

Que o Senhor nos conceda essa perseverança. Que não esmoreçamos diante das lutas, que não abandonemos a oração quando as respostas demoram, que não percamos a fé quando os dias são difíceis. Deus é justo, amoroso e fiel. Ele ouve o clamor do seu povo. E em Cristo temos plena segurança de que nossa esperança não será frustrada.

Que Deus nos ajude!

 

(um texto de Alex Mendes)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Deixe o Seu Passado em Paz!


 

Filipenses 3:13-14

Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus.

 

O apóstolo Paulo fala que a Lei que acusava o povo – o que ele chama de “escrito de dívidas” – foi pregada na cruz por Jesus Cristo: Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões, e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz, e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz (Colossenses 2:13-15). O que isso significa? Isso significa que aqueles que estão em Cristo, a partir do momento em que se convertem e redefinem a sua vida para segui-Lo, em Seus exemplos, ensinamentos e doutrina, agora já não têm mais nada a acusá-los: Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte (Romanos 8:1-2).O passado está perdoado! O passado já não é mais uma bagagem a ser carregada! O passado não tem que ser arrastado mais!

Esquecendo-me das coisas que ficaram para trás não significa dizer que se passa a ter uma espécie de amnésia selecionada sobre o passado. É claro que continuaremos lembrando das coisas do passado, até onde nossa memória for capaz de registrar. Mas quer dizer que as coisas do passado já não são mais obrigatoriamente uma fonte de acusação ou um peso a ser arrastado. Quer dizer também que aquilo que do passado for útil – boas memórias e lembranças, aprendizados edificantes, saudades boas – segue vivo e lembrado, revisitado memorialmente nalguns momentos, fazendo bem à alma. E quer dizer que – especialmente! – as coisas ruins servem apenas de aprendizado, não são mais arrependimentos, remorsos, frustrações ou fontes de tristeza e depressão. É o caso de agora, estando-se em Cristo, deixar o passado no passado, em paz, e seguir...

Avançando para as que estão adiante quer dizer isso mesmo: seguir, prosseguir, avançar... E aproveitando e desfrutando do momento presente, que é o único momento que realmente temos!

Prossigo para o alvo, segue dizendo o apóstolo Paulo. E qual é o alvo? O alvo é a eternidade/plenitude/absoluto junto a Deus! E há que se ter perseverança para chegar lá: “Mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Marcos 13:13), segundo as palavras do próprio Jesus. Perseverar mesmo diante das perplexidades e escândalos existenciais e das enganações “em nome de Jesus”, as quais são cada vez mais perceptíveis: “Naquele tempo muitos ficarão escandalizados, trairão e odiarão uns aos outros, e numerosos falsos profetas surgirão e enganarão a muitos. Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará, mas aquele que perseverar até o fim será salvo. E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim (Marcos 24:10-14). Este é o tempo em que vivemos! E, sim, com esta perseverança, somos agentes ativos para que o Evangelho seja pregado em todo o mundo. Por fim, a perseverança deve se fazer presente e ser constante em nossas vidas, com confiança, para que o “alvo” seja plenamente alcançado: Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que ele prometeu; pois em breve, muito em breve “Aquele que vem virá, e não demorará. Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele”. Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que creem e são salvos (Hebreus 10:35-39).

E este é o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus, que foi posto em nossas vidas antes mesmo da existência, conforme Jesus mesmo diz: Voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver (João 14:3).

Para finalizar, aprendemos isto: Deixe o seu passado em paz!

Deixe o seu passado em paz e perdoado!

Para que ele fique em paz – e você também! – é preciso perdão, é preciso perdoar!

Perdoe-se!

Perdoe as pessoas!

Perdoe as situações e as circunstâncias!

Prossiga na vida com quem você sabe que lhe faz bem e a quem você sabe que faz bem!

E deixe seguir seu próprio caminho e sua própria vida aquele ou aquela que já não lhe faz bem, ou a quem você já não faz bem – mas deixe seguir em paz e portando amplamente o seu perdão!

Fique junto somente se for para amar!

Separe-se de quem o amor já não for um agente que liga as almas! Mas lembre-se: até para se separar em paz precisa haver perdão!

E viva...

... viva e deixe viver!

... porque na eternidade/plenitude em Deus – que é para “onde” todos queremos ir/estar/ser – existe a forte possibilidade de haver o reencontro/convivência com todos!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Expectativa Vertical


A Lei da Retribuição entre José e o ladrão da cruz

 

“Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais Ele fará”. (Salmo 37:5)

 

A fé cristã se sustenta sobre dois eixos: o horizontal do amor ao próximo e o vertical da esperança em Deus. No primeiro, servimos, acolhemos e construímos relações; no segundo, esperamos, confiamos e nos orientamos para o alto. O problema surge quando confundimos os planos — quando, servindo horizontalmente, começamos também a esperar horizontalmente.

Preste atenção para que não entenda esta reflexão como uma desconstrução. Não se trata de negar a importância das pessoas, mas de reorientar a fonte da nossa esperança. Somos chamados a tocar Deus servindo o outro, mas a expectativa da recompensa, do reconhecimento e do retorno deve permanecer voltada para Deus. É na vertical que a alma encontra o eixo da sua confiança.

A chamada Lei da Retribuição é uma das mais antigas intuições espirituais da humanidade: tudo o que fazemos retorna de algum modo, o bem e o mal encontram resposta. Mas, na teologia bíblica, essa lei passa por uma purificação decisiva — ela deixa de ser mecânica para tornar-se pessoal. A retribuição não vem das circunstâncias, mas de Deus.

Por isso, ainda que sejamos instrumentos uns dos outros, a fonte de toda recompensa permanece divina. O cristão é convidado a agir na horizontal, mas esperar na vertical. Fazer o bem, sim, mas fazer para Deus. Servir, sim, mas sem esperar retorno imediato dos homens.

Quando a expectativa se volta aos outros, a alma se desgasta; quando se volta a Deus, a alma descansa. Essa é a espiritualidade madura: servir com liberdade, confiar com paciência.

A Bíblia oferece dois retratos belíssimos dessa lógica divina:

Primeiro, José, o sonhador traído, lançado no cárcere, pede a um oficial reinstalado no cargo: “Lembra-te de mim” (Gênesis 40:14). O pedido é legítimo, humano, justo — mas o homem o esquece por dois longos anos.

Séculos depois, outro prisioneiro, agora à beira da morte, faz o mesmo pedido: o ladrão arrependido, crucificado ao lado de Cristo, suplica: “Lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino” (Lucas 23:42). E Jesus responde de imediato: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Dois clamores idênticos.

Duas respostas diferentes.

Mas uma só lição: a lembrança verdadeira vem de Deus, e o tempo da resposta é o tempo da graça.

José amadurece na espera — aprende que o silêncio de Deus é também forma de cuidado. O ladrão é acolhido na urgência — prova que a misericórdia não se atrasa quando a alma se abre. Em ambos, Deus não falha: apenas decide o momento exato de agir.

A tentação de esperar na horizontal é grande. Queremos ser lembrados, reconhecidos, recompensados — e, muitas vezes, sofremos quando o retorno não vem. Mas o Evangelho nos convida à inversão da lógica: não esperamos das mãos que tocamos, mas das mãos que não vemos.

Quando a expectativa está em Deus, a alma não se frustra, porque Ele jamais se esquece. Quando a fé se firma na vertical, a horizontal encontra sentido: o amor ao próximo deixa de ser moeda de troca e se torna expressão de gratidão.

Em última instância, a vida cristã é uma arte de alinhar o olhar. Servimos na terra, mas olhamos para o céu. Fazemos o bem aqui, mas esperamos dali. Aquele que aprendeu a esperar na vertical jamais se decepciona com o silêncio dos homens, porque ouve o sussurro constante da fidelidade divina.

Deus não falhou com José, apenas o amadureceu.

Deus não tardou ao ladrão, apenas o acolheu.

Ambos receberam resposta — um no tempo da História, outro no instante da Eternidade. E assim aprendemos que Deus sempre lembra, ainda que os homens se esqueçam.

Por isso, sirva na horizontal, mas espere na vertical.

Porque quem confia em Deus nunca espera em vão.

 

CSTF

 

Fonte: https://www.facebook.com/groups/752717255177909/?locale=pt_BR

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O Que Lhe Impede de Voltar?


Oséias 5:4

Suas ações não lhes permitem voltar para o seu Deus. Um espírito de prostituição está no coração deles; não reconhecem o SENHOR.

 

O profeta Oséias estava incumbido de denunciar a prostituição espiritual de Israel.

Esta era uma expressão que dava a clara ideia do que queria dizer: significava que o povo estava abandonando a Deus, pretendendo enganá-Lo – como se isso fosse possível! –, e entregar-se a cultuar outras divindades comuns aos povos daquela época e geografia.

Era, espiritualmente falando, um ato de prostituição. Deus colocava-Se – de forma figurada – como o marido do Seu povo, que Ele havia resgatado do Egito e introduzido na “terra prometida”, onde “manava leite e mel”. Em outras palavras, os israelitas mostravam-se ingratos, agora que pensavam encontrar-se em condições seguras e prósperas.

Esta advertência do profeta era dirigida aos sacerdotes, à família real e ao povo.

Aos sacerdotes, pois eram os primeiros que deveriam ser zelosos dos mandamentos de Deus, mas eram os primeiros a profaná-los. Além disso, eram licenciosos e permitiam que se cultuassem outras divindades e, mais do que isso, não raramente participavam como agentes atuantes destes cultos, erigindo altares debaixo de árvores frondosas – que eram locais tidos como propícios a estas práticas –, bem como erigindo colunas sagradas, que eram marcos de homenagem às divindades pagãs.

A advertência era também à família real, pois, como dirigentes da nação, tinham a obrigação de zelar pelo cumprimento das leis – e lembramos que a Lei de Moisés era tanto de caráter religioso como político/social. Mas a família real não se importava com isso, antes, oprimiam o povo e se regalavam com a condição da realeza.

E, por fim, a advertência era dirigida ao povo em geral, pois, não obstante a negligência dos sacerdotes e da realeza, isso não era razão para que o povo simplesmente seguisse essa devassidão, pois tinham conhecimento dos mandamentos e tinham obrigação moral e comportamental com eles.

Assim, a advertência – ao mesmo tempo dura e rígida, mas também chamativa ao arrependimento e à conversão – alcançava a todos!

A nossa Palavra para este texto diz que suas ações não lhes permitem voltar para o seu Deus”. Ora, isso é de um significado profundo! Tem implicações espirituais e psicológicas, enraizando-se no subconsciente coletivo.

Nossas ações – aquilo que rotineiramente fazemos e a forma como nos comportamos e conduzimos – têm um nascedouro: nossos pensamentos e compreensões. Assim, passamos a agir conforme pensamos. Primeiro, transformamos esses pensamentos em palavras, dizendo a nós mesmos – e aos outros – no que acreditamos e como achamos que as coisas devem ser. Depois, impulsionados pelas próprias palavras que se tornam um testemunho a nosso respeito, passamos a agir, passamos a produzir padrões comportamentais e nos tornamos “assim mesmo”. Passamos a ser o que pensamos e falamos. Esse agir se torna, com o passar do tempo, automático e reproduzido diariamente de forma inconsciente. As nossas ações passam a ser quem somos.

E aqui entra o falar do profeta e o efeito causado. Mesmo que a pessoa, ao ouvir a advertência profética, quisesse mudar seu comportamento, quisesse converter-se, ela estava tão atrelada ao processo de agir no automático, que essa forma de agir/ser se tornava um obstáculo muito grande à mudança – era mesmo um impeditivo para tal. A pessoa poderia até querer mudar, mas estava presa ao padrão comportamental, não somente dela, mas de todos os que a cercavam. Daí a dificuldade de mudar; daí o fato de ser dito que suas ações não lhes permitem, pois a pessoa passa a crer que ela é “assim mesmo”, afinal, os demais também são, e agem de igual forma.

Para mudar, é preciso quebrar o padrão; é preciso quebrar a cadeia comportamental; é preciso romper as correntes das ações automatizadas! Afinal, isso é conversão: é dar meia-volta em tudo, é dar alguns passos atrás e recomeçar, é acertar um novo passo e passar a andar no novo caminho! Mas isso demanda uma boa dose de querer e esforço!

E por que o profeta diz que “um espírito de prostituição está no coração deles”? O que isso quer dizer? Isso quer dizer que a pessoa está de tal forma desconstruída e perdida em seu padrão comportamental, que é como estar prostituída, degenerada, completamente desviada e perdida. Esse “espírito” é um padrão mental/psicológico que se instala, causando dificuldade de romper o padrão nocivo para reinstalar um novo padrão, uma nova forma de conduta, um retorno ao mandamento divino.

Para romper esse padrão, não raro precisamos recorrer ao Senhor!

Lembro de Jesus, que diz que para a pessoa vir a Ele, deve se reconhecer como um doente psicológico/espiritual. Somente quando assim nos reconhecemos, é que estamos abertos aos efeitos que o Evangelho pode produzir. À pessoa que se enxerga como ela realmente é, que não tenta se disfarçar dentro de uma pseudonormalidade, que não dissimula sua própria falência emocional, a esta pessoa o Senhor diz: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim para chamar justos, mas pecadores” (Marcos 2:17).

O Evangelho é Boa Nova para uma classe humana: os que admitem a sua própria condição e doença!

Aqueles que não se admitem desta forma, dificilmente ouvem a Palavra do Senhor; dificilmente creem que precisam de Jesus; não reconhecem o SENHOR, como diz o profeta Oséias.

Aqueles que não se reconhecem como “necessitados” da graça divina através de Jesus, podem até ser cristãos de banco de igreja, de domingos religiosos, de bom “comportamento de hamster”, podem até estudar e discutir teologias, podem até ser “pessoas de bem”, mas muito dificilmente se convertem a reais seguidores de Jesus Cristo, a Seus discípulos no dia a dia!

Quem se acha autossuficiente e se estriba nos seu próprio conhecimento, bom senso e capacidade, quem se acha rico de si mesmo, abastado de ego, pode vir a ouvir a seu respeito: “Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:23-24). É dessa falsa riqueza da autossuficiência psicológica/espiritual que Jesus também falava. E a sequência é impactante: Ao ouvirem isso, os discípulos ficaram perplexos e perguntaram: “Neste caso, quem pode ser salvo?” Jesus olhou para eles e respondeu: “Para o homem é impossível, mas para Deus todas as coisas são possíveis (Mateus 19:25-26).

Esta é a resposta/conclusão que se tem diante da advertência de Oséias! Sim, somos salvos por Deus!

E podemos concluir com as palavras do apóstolo Paulo: No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da Lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado (Romanos 7:22-25).

E ainda: Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte (Romanos 8:1-2).

Aí sim, nada nos impede de voltarmos e seguir a Jesus Cristo!

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert

domingo, 25 de janeiro de 2026

A Evidência do Batismo Com o Espírito Santo é o Falar em Línguas?


 

Nos últimos anos tenho falado algumas vezes sobre o tema do dom de línguas, porque esse é um assunto muito presente no contexto evangélico brasileiro. A tradição pentecostal, especialmente de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Quadrangular, Nazareno e diversas outras comunidades continuístas, afirma que o dom de línguas continua da mesma forma que acontecia nos dias dos apóstolos.

Para muitos irmãos sinceros, aquilo que acontece nos cultos hoje, com sons desconexos, vocalizações repetitivas e expressões extáticas, seria exatamente o mesmo fenômeno que vemos em Atos 2 e em 1 Coríntios 14. Mas isso não corresponde ao ensino das Escrituras.

A primeira coisa que precisamos lembrar é que a Bíblia não fala em línguas estranhas no sentido de sons misteriosos, angelicais ou esquisitos. A palavra usada no Novo Testamento significa línguas estrangeiras, idiomas reais, inteligíveis, apenas desconhecidos para quem falava. Em Atos 2 isso aparece com absoluta clareza. Cada pessoa ouvia os discípulos “falando em seu próprio idioma”. O texto chega até a listar as nações envolvidas. Nada ali é estático ou caótico, é milagre sim, mas milagre linguístico, não mantras religiosos.

Outro ponto fundamental é entender o sentido de 1 Coríntios 14. Paulo diz que “quem fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus, porque ninguém o entende”. Muitos usam esse versículo para justificar que a língua é um idioma celestial secreto. Mas Paulo não está dizendo isso. Ele está dizendo que, quando alguém fala um idioma que ninguém na congregação conhece, ninguém consegue entender, então a comunicação vertical é apenas com Deus, que conhece todos os idiomas.

Se eu entrar em uma igreja aqui em Piracicaba e começar a falar em mandarim ou em holandês, ninguém vai entender, então no sentido prático, eu não estaria falando aos homens, mas apenas Deus entenderia. É isso que Paulo está ensinando. Ele não está criando um idioma celestial próprio, mas mostrando o problema de alguém falar uma língua estrangeira sem interpretação dentro da assembleia.

Além disso, Paulo deixa claro que as línguas deveriam ser usadas apenas com interpretação e sempre com ordem. Dois ou três, um de cada vez, e se não houvesse intérprete deveria ficar calado. Isso elimina completamente a prática moderna das igrejas pentecostais onde várias pessoas falam ao mesmo tempo, sem ordem e sem interpretação. Não são sugestões de Paulo, são ordens apostólicas. A igreja não pode simplesmente ignorá-las.

Mas há outra questão ainda mais ampla que muitos não percebem. As pessoas assumem que o dom de línguas de Atos 2 e de 1 Coríntios 14 é o mesmo fenômeno que elas praticam hoje, e que esse dom teria atravessado toda a história da igreja intacto. Mas isso não corresponde à Bíblia. Quando lemos o livro de Atos percebemos que as línguas tinham um papel específico e histórico, ligado diretamente ao avanço do evangelho.

Jesus disse que os discípulos seriam suas testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra. Essa progressão aparece no livro de Atos e, em cada marco desse avanço, o Espírito Santo confirma seu movimento. Primeiro entre os judeus em Jerusalém, depois na Judeia, depois entre os samaritanos em Samaria, e por fim entre os gentios representados por Cornélio.

Esse episódio de Cornélio é tão importante que Atos dedica dois capítulos inteiros para explicar o que estava acontecendo. Ali o Espírito Santo se manifesta da mesma forma porque Deus estava mostrando publicamente que os gentios tinham sido incluídos no mesmo corpo e na mesma promessa.

Depois de Cornélio, o dom de línguas não aparece mais como fenômeno recorrente na vida da igreja. Ele tinha um propósito, e esse propósito foi cumprido. Esse ponto é fundamental para desmontar a ideia de uma suposta segunda bênção, que afirma que o cristão se converte e, depois, em um momento posterior, recebe o batismo com o Espírito Santo e como prova fala em línguas. Isso não existe na Bíblia.

O Novo Testamento afirma que todo crente é selado com o Espírito Santo no momento da conversão. Ele é regenerado, justificado e adotado como filho de Deus, e o Espírito Santo passa a habitar nele como selo e garantia. O que existe depois da conversão é crescimento na santificação, amadurecimento espiritual, combate ao pecado e perseverança, mas não uma segunda experiência que transforme um crente comum em um crente de segunda etapa.

Também é importante lembrar que a ideia de língua dos anjos não encontra fundamento bíblico real. Paulo em 1 Coríntios 13 usa uma hipérbole evidente. Ele diz ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, ou seja, mesmo que eu tivesse domínio de todos os idiomas humanos e celestiais, sem amor não teria valor. Ele não está dizendo que fala tais línguas. E, na Escritura, todas as vezes que anjos falaram com seres humanos, falaram claramente na língua que a pessoa entendia. Não existe nenhum exemplo de fala angelical ininteligível.

Agora, existe outro aspecto pastoral extremamente importante. Muitos irmãos que acreditam possuir esse dom não fazem isso por maldade. Eles apenas reproduzem aquilo que aprenderam desde sempre. Pessoas que cresceram em igrejas pentecostais escutam desde criança esses sons durante o culto. O ambiente emocional, a liturgia, o exemplo dos líderes e a carga coletiva criam um tipo de condicionamento natural. Esse fenômeno ocorre também em religiões pagãs, seitas e grupos místicos.

No momento de emoção intensa, o cérebro reproduz aquilo que memorizou. Eu já conversei com cristãos sinceros que praticavam essas vocalizações e que, depois de estudarem a Bíblia com mais profundidade, perceberam que não se tratava de um dom espiritual, mas simplesmente de sons aprendidos e repetidos durante anos. E eles mesmos confessaram isso com sinceridade.

Reconhecer isso não diminui a fé dessas pessoas, pelo contrário, mostra como a sinceridade precisa estar unida à verdade. A sinceridade sem verdade pode levar a práticas bem intencionadas, mas equivocadas. Por isso nosso compromisso precisa ser sempre com a Palavra e não com tradições humanas, por mais emocionantes que sejam.

O que vemos nas igrejas hoje não é o mesmo fenômeno de Atos e nem segue as regras claras que Paulo estabeleceu. Se fosse o mesmo dom, ainda assim teria de ser usado com ordem, com interpretação e com restrição, algo que claramente não ocorre. E se não é o mesmo dom, então é ainda mais grave, porque se usa o nome do Espírito Santo para validar práticas que não têm apoio bíblico.

Por isso, o chamado aqui é simples e amoroso. Examine as Escrituras com profundidade. Coloque a Palavra de Deus acima da emoção, acima da tradição, acima do costume. O verdadeiro mover do Espírito nunca contradiz a Bíblia que Ele mesmo inspirou. Que nossa fé seja firme, que nosso culto seja bíblico e que nosso coração esteja ancorado na verdade.

Que Deus nos ajude!

 

(um texto de Alex Mendes)

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Trabalho no Evangelho


 

1º Timóteo 4:10

Se trabalhamos e lutamos é porque temos colocado a nossa esperança no Deus vivo, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.

 

Nesta carta dirigida ao seu pupilo Timóteo – e em especial neste versículo –, o apóstolo Paulo fala de si, fala também dos demais apóstolos de Jesus, seus colegas de missão apostólica, daqueles que haviam sido designados e enviados a ajudar a fomentar o crescimento das comunidades que haviam sido fundadas e, por tabela, ele fala de todos aqueles irmãos e irmãs daquele tempo que, de alguma forma, faziam algo pela divulgação do Evangelho, para que mais pessoas cressem e aderissem.

Da mesma forma, esta Palavra chega a nós, tendo o mesmo sentido, falando também para nós. E não se dirige somente àqueles que têm a tarefa “formal”, por assim dizer, de anunciar o Evangelho, mas também a todos aqueles que creem e decidem contribuir para essa difusão.

Entre esses “informais” eu me incluo, e podem ser incluídos todos aqueles que foram tocados pela graça do Senhor e decidem colaborar neste mesmo intuito.

Todos nós – quem quer que seja –, para fazermos algo neste sentido, temos que ter esperança em algo. Aqui, no caso, há a esperança de que a mensagem alcance quem a lê e possa, de alguma forma, ajudar quem a lê.

Mas, assim como Paulo diz a Timóteo, também a minha esperança não está em mim mesmo como divulgador; a esperança não está em minha capacidade escritora, argumentativa e persuasiva. De mim mesmo sei que não poderia fazer nada. Não sou eu quem “transforma a água em vinho”.

E, por falar em “transformar água em vinho” – que foi o primeiro milagre registrado de Jesus –, deixe-me trazer uma visão ilustrativa a este respeito.

Primeiro, no entanto, vamos relembrar o texto de João 2:1-11, que traz esta história:

No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava ali; Jesus e seus discípulos também haviam sido convidados para o casamento. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”.

Respondeu Jesus: “Que temos nós em comum, mulher? A minha hora ainda não chegou”.

Sua mãe disse aos serviçais: “Façam tudo o que ele lhes mandar”.

Ali perto havia seis potes de pedra, do tipo usado pelos judeus para as purificações cerimoniais; em cada pote cabiam entre oitenta e cento e vinte litros.

Disse Jesus aos serviçais: “Encham os potes com água”. E os encheram até a borda.

Então lhes disse: “Agora, levem um pouco ao encarregado da festa”.

Eles assim fizeram, e o encarregado da festa provou a água que fora transformada em vinho, sem saber de onde este viera, embora o soubessem os serviçais que haviam tirado a água. Então chamou o noivo e disse: “Todos servem primeiro o melhor vinho e, depois que os convidados já beberam bastante, o vinho inferior é servido; mas você guardou o melhor até agora”.

Este sinal miraculoso, em Caná da Galileia, foi o primeiro que Jesus realizou. Revelou assim a sua glória, e os seus discípulos creram nele.

Pois bem, agora vamos à visão ilustrativa a respeito desta história: O que aprendo com esta passagem? Muitos, ao pregarem o Evangelho a alguém – seja no púlpito, seja numa visita familiar, seja num encontro fortuito –, desejam convencer as pessoas a crerem. Muitos desejam, usando argumentos persuasivos e convincentes, fazer com que o outro saia desse encontro convicto, transformado – ou convertido – de um antigo descrente para um novo crente. Ao tentarem fazer isso, muitas vezes forçam a barra, tornam-se imponentes e inoportunos e, não raras vezes, tornam-se inconvenientes, despertando repulsa em quem ouve. Mas não é isso que aprendo neste milagre de Jesus. O que aprendo é o seguinte: Tal qual os serviçais, minha tarefa é apenas encher os potes de água. Espiritualmente falando, minha tarefa é apenas compartilhar o Evangelho, fazendo-o chegar a quem o ouve ou lê. Não é minha tarefa transformar a água em vinho, isto é, convencer. Transformar a água em vinho, convencer e promover a conversão, é trabalho de Jesus Cristo por intermédio do Seu Santo Espírito, a tocar o pote/coração daquela pessoa. Isso Ele faz em cima da Palavra/Evangelho que compartilho. O milagre quem faz não sou eu – é Jesus. A mim é dado o privilégio de participar do processo.

Então, para concluir, também posso dizer como Paulo diz, que aí está a minha esperança: no Deus vivo, o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem.

Assim, trabalhar no Evangelho é um privilégio!

E é um trabalho que não é trabalho, antes, é um ato voluntário, altruísta e uma força interior que me move!

E eu o faço com alegria e uma incontrolável impulsão que, sei, só pode vir do Espírito do Senhor!

Tudo vem do Senhor, graças a Deus!

“Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma (João 15:5).

 

Por ora é isso.

Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!

Saudações,

Kurt Hilbert