Jó
36:18
“Cuidado! Que ninguém o
seduza com riquezas; não se deixe desviar por suborno, por maior que este
seja”.
Foi Eliú, um dos amigos de Jó, quem disse o que
está logo acima, como mote para este texto.
Mas hein?!
Não parece que esta fala cai como uma luva para o
nosso tempo, para o nosso país, para a nossa gente – e para quem nos representa
no poder, isto é, os políticos? Não parece que esta fala se encaixaria diretamente
em alguma comissão parlamentar em Brasília ou em um palácio governamental de
qualquer capital brasileira – ou mesmo naquele pequeno município vizinho seu, ou
no seu mesmo?
Parece que, dadas as notícias que grassam por aí,
estamos envolvidos num caos de corrupção pública/privada!
Mas vamos refletir um pouquinho, para ver como
isso tudo nos toca.
A verdade é que temos uma mania quase infantil de
terceirizar o caos. Quando o assunto é corrupção, vestimos imediatamente a
nossa capa de virtude invisível e apontamos o dedo para o horizonte. O culpado
é sempre o Excelentíssimo Senhor Deputado, o Governador, o Prefeito ou o
Secretário. Falamos deles como se fossem uma casta exótica, uma espécie
biológica à parte que brotou espontaneamente nos palácios de mármore.
Dia desses questionei se, na cabeça do cidadão
comum, os políticos desceram na Esplanada dos Ministérios a bordo de um disco
voador reluzente, vindos de uma galáxia distante e moralmente corrompida. Podemos
até imaginar a cena: a nave pousando no Planalto Central, as portas se abrindo
cinematograficamente e uma criatura de terno e gravata descendo, pisando em
solo terráqueo com o único e exclusivo propósito de sacanear o orçamento
público. Quem sabe o Presidente da República é um ET? O mesmo pode acontecer no
Palácio do Governo do seu Estado, ou na Câmara de Deputados Estaduais, ou na
Prefeitura e na Câmara de Vereadores. Por que não? Seriam todos ETs?
Só que não... A ficção científica termina assim
que olhamos o espelho retrovisor da realidade. Eles não vieram de Marte. Não
vieram de Alfa Centauri. Vieram do meio de nós. Um dia pegaram o mesmo ônibus,
frequentaram a mesma padaria, estudaram nas mesmas escolas e, o mais
importante, receberam o selo de autenticidade jurídica e moral através do nosso
próprio voto. Não existe povo absolutamente honesto com governo corrupto, assim
como não existe governo absolutamente honesto com povo corrupto. O governo é,
por definição e espelhamento, a média matemática da alma de sua nação.
“Ah, mas eu sou diferente!” – brada o paladino da
moralidade do alto de sua timeline nas redes sociais. “Eu sou honesto,
incorruptível, incapaz de desviar um centavo nem me envolver em falcatruas!”
Será? É uma afirmação bonita! Dá até orgulho de
ouvir!
Mas será que é mesmo? Topa um teste?
Se topar, vamos lá... Vamos só imaginar...
Você é um bom motorista, mas, lá pelas tantas,
teve uma maré de azar e, num mesmo mês, foi flagrado por um pardal a cometer
pequenas infrações de velocidade, ultrapassagens em local proibido e parada em
fila dupla – esta aferida por um agente de trânsito.
Pronto! Atingiu o limite de pontos perdidos e sua carteira
de habilitação dançou, além da soma de multas ser significativa.
Mas eis que você tem um conhecido – com quem você
comenta o infortúnio ocorrido – que lhe dá uma informação assaz útil: ele tem
um conhecido no departamento de trânsito que tem acesso ao sistema e, por uma pequena
ajuda monetária simbólica, pode apagar seus dados e zerar sua pontuação infratora,
além de zerar também o numerário devedor em multas – e o melhor: com total
segurança, sem ninguém saber e sem ninguém poder ligar a subtração de dados a você.
E agora? O que fazer? Pagar pelos seus erros ao
volante e perder sua carteira de habilitação por um bom tempo, além de pagar o
valor considerável em multas ou... Ou, por um pequeno suborno, limpar sua
barra? E agora? Oh, dúvida cruel...!
Sim, este é apenas um pequeno teste de virtude,
uma ficção, uma metáfora... E espero que nunca ocorra com você...
Mas o teste da virtude raramente se apresenta com malas de dinheiro em hotéis cinco estrelas ou grandes esquemas de propina em contratos de infraestrutura. A vida real é muito mais sutil. O diabo da tentação não usa chifres e capa vermelha; ele costuma se vestir com a roupa de “um conhecido de um conhecido” que quer apenas nos quebrar um galho.
E aí? Será mesmo que o político desceu num disco
voador ... Ou você o elegeu, à sua imagem e semelhança?
Mas hein?!
Por ora é isso.
Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem!
Saudações,
Kurt Hilbert






