Há algo na vida cristã que sempre me
marcou profundamente, algo que considero parte da minha essência, e eu sei que
isso não é mérito meu. Não é da minha índole natural, não nasceu da minha
força, não veio de boas intenções humanas. É fruto da regeneração, é obra do
Espírito Santo transformando um coração que, por si mesmo, só saberia olhar
para si, defender-se, e buscar o próprio interesse.
Eu sei das minhas falhas. Eu sei dos
meus pecados. Sei das áreas da minha vida em que ainda não alcancei a
maturidade necessária, das coisas que ainda preciso abandonar, ajustar e
vencer. Como todo cristão regenerado, carrego a consciência de que preciso, a
cada dia, morrer mais para o pecado e viver mais para Cristo. Mas, mesmo
entendendo minha imperfeição, há um aspecto da vida cristã que sempre ardeu
forte em mim: fazer o bem ao próximo sem esperar absolutamente nada em troca.
E é aqui que, muitas vezes, surge o
conflito com a mentalidade do mundo e, às vezes, até com a mentalidade de
cristãos que ainda não compreenderam plenamente essa verdade. Não poucas vezes
ouvi:
“Para de ser bobo”.
“Você faz demais pelos outros”.
“As pessoas se aproveitam de você”.
“Ninguém merece tanto”.
“Você precisa pensar mais em você”.
“Aprende a dizer não, o não é
libertador”.
Essa última frase, então, virou lema
de uma geração. Para muitos, dizer “não” é a chave para uma vida equilibrada,
saudável e cheia de paz.
Mas quando eu olho para as
Escrituras, não consigo enxergar isso assim.
Não consigo ver o “não” como
libertador.
Pelo contrário, para mim, o eu é que
precisa ouvir o não.
A verdadeira libertação não vem
quando digo “não” aos outros, mas quando digo “não” a mim mesmo, às minhas
vontades, ao meu conforto, ao meu ego, e digo “sim” ao chamado de Cristo para
amar.
E quando falo isso, sempre tem alguém
que insiste:
“Mas a pessoa não merece”.
“Ela nem reconhece o que você faz”.
“Ela não retribui”.
“Ela faz mal para os outros”.
“Ela não tem maturidade”.
“Ela não tem nada para te oferecer”.
E é exatamente aqui que o Evangelho
brilha.
Porque o nosso Senhor não fez o bem a
quem era bom. Ele não entregou Sua vida por quem amava. Ele não Se sacrificou
por quem tinha algo a oferecer. Cristo morreu por quem não merecia. Cristo amou
quem não amava. Cristo Se entregou por quem não tinha nada para retribuir.
E Paulo deixa isso claro em Romanos 5:6-10:
“Porque Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.
Dificilmente alguém morreria por um justo, pois poderá ser que pelo homem bom
alguém ainda ouse morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo
fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais
agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.
Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte
de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua
vida”.
Cristo morreu por fracos, Cristo
morreu por ímpios, Cristo morreu por pecadores, Cristo morreu por inimigos.
Ele não morreu por gente que O
tratava bem, que O honrava, que O amava. Ele morreu por quem cuspia em Sua
graça, por quem rejeitava Sua bondade, por quem não tinha nada para oferecer
senão inimizade.
Se Ele fez isso quando éramos Seus
inimigos, como poderia eu exigir que as pessoas “mereçam” meu amor para que eu
as ame?
É claro que não estou dizendo que eu
faço o bem para inimigos pessoais o tempo todo, isso é difícil, raro e exige
graça extraordinária. Mas mesmo no cotidiano, fazemos o bem para pessoas que
amamos, gente querida, próxima, pela qual temos carinho, mas que, por
imaturidade espiritual, falta de regeneração ou limitação humana, simplesmente
não consegue retribuir. Às vezes a única coisa que ela pode oferecer é um “Valeu,
obrigado, hein!” E está tudo bem. Amar assim é imitar Cristo.
E esse é um ponto fundamental: às
vezes aquela pessoa não retribui não porque é ingrata, mas porque ainda não alcançou
o nível de maturidade que, pela graça de Deus, nós já alcançamos. Não porque
somos melhores, mas porque o Espírito Santo já trabalhou em nós aquilo que
ainda vai trabalhar nela. Talvez você tenha caminhado alguns degraus a mais na
santificação, e isso é pura graça, não mérito.
Paulo trata disso em Romanos 15:1:
“Ora, nós que somos fortes devemos suportar as fraquezas dos fracos e não
agradar a nós mesmos”.
Os fortes existem para carregar os
fracos, não para exigir que eles sejam fortes também.
Deus nos dá maturidade não para
sermos soberbos, mas para servirmos melhor.
E logo em seguida, Paulo cita o Salmo
69:9: “O zelo da tua casa me consumirá”.
Em João 2:17, os discípulos entendem
que esse zelo se cumpre em Cristo.
O zelo pela casa do Pai, que é zelo pela
adoração verdadeira, sempre nos leva a abrir mão de nós mesmos para o bem do
próximo.
Porque amar a Deus de todo o coração
(Mateus 22:37-40) inevitavelmente transborda em amar o próximo, e amar o
próximo significa, quase sempre, abrir mão de algo em nosso favor para abençoar
alguém que não tem nada a nos oferecer.
O mundo não entende isso.
A carne não entende isso.
O coaching moderno não entende isso.
Mas o regenerado entende.
O amor verdadeiro não nasce da
autodeterminação, nasce do Espírito Santo.
É Ele quem nos faz amar o que não
amávamos, servir quem não retribui, fazer o bem sem esperar retorno, e agir
como Cristo agiu quando nós ainda éramos incapazes de responder ao amor d’Ele.
E quando vivemos assim, não estamos
nos tornando bobos, estamos nos tornando parecidos com Jesus.
Não estamos sendo explorados, estamos
sendo moldados.
Não estamos perdendo tempo, estamos
pregando sem palavras.
Porque, sim, eu sempre acreditei que
pregar exige palavras, e é verdade. Mas quando alguém já ouviu sobre Jesus, já
sabe que Ele morreu na cruz, já tem alguma noção do Evangelho, então o seu modo
de agir prega Cristo. A sua atitude revela o amor de Deus de uma forma que
palavra nenhuma alcança.
Quando você ama alguém que não pode
te oferecer nada, você está fazendo exatamente o que Cristo fez quando você não
podia oferecer absolutamente nada a Ele.
E isso, isso sim, é libertador!
Libertador não porque eu digo “não”
aos outros, mas porque digo “não” ao meu ego, e “sim” ao chamado de Cristo.
Libertador porque já não dependo do
retorno humano, mas da graça divina.
Libertador porque amar assim é viver
o Evangelho na prática.
E, pela graça, enquanto o Espírito
Santo trabalha em nós, vamos entendendo que a maturidade cristã não nos dá o
direito de exigir retorno, mas a capacidade de amar sem retorno.
Essa é a vida que Cristo viveu por
nós.
Essa é a vida que Ele nos chama a
viver pelos outros.
Que Deus nos ajude!
(um texto de Alex Mendes)






