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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Expectativa Vertical


A Lei da Retribuição entre José e o ladrão da cruz

 

“Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais Ele fará”. (Salmo 37:5)

 

A fé cristã se sustenta sobre dois eixos: o horizontal do amor ao próximo e o vertical da esperança em Deus. No primeiro, servimos, acolhemos e construímos relações; no segundo, esperamos, confiamos e nos orientamos para o alto. O problema surge quando confundimos os planos — quando, servindo horizontalmente, começamos também a esperar horizontalmente.

Preste atenção para que não entenda esta reflexão como uma desconstrução. Não se trata de negar a importância das pessoas, mas de reorientar a fonte da nossa esperança. Somos chamados a tocar Deus servindo o outro, mas a expectativa da recompensa, do reconhecimento e do retorno deve permanecer voltada para Deus. É na vertical que a alma encontra o eixo da sua confiança.

A chamada Lei da Retribuição é uma das mais antigas intuições espirituais da humanidade: tudo o que fazemos retorna de algum modo, o bem e o mal encontram resposta. Mas, na teologia bíblica, essa lei passa por uma purificação decisiva — ela deixa de ser mecânica para tornar-se pessoal. A retribuição não vem das circunstâncias, mas de Deus.

Por isso, ainda que sejamos instrumentos uns dos outros, a fonte de toda recompensa permanece divina. O cristão é convidado a agir na horizontal, mas esperar na vertical. Fazer o bem, sim, mas fazer para Deus. Servir, sim, mas sem esperar retorno imediato dos homens.

Quando a expectativa se volta aos outros, a alma se desgasta; quando se volta a Deus, a alma descansa. Essa é a espiritualidade madura: servir com liberdade, confiar com paciência.

A Bíblia oferece dois retratos belíssimos dessa lógica divina:

Primeiro, José, o sonhador traído, lançado no cárcere, pede a um oficial reinstalado no cargo: “Lembra-te de mim” (Gênesis 40:14). O pedido é legítimo, humano, justo — mas o homem o esquece por dois longos anos.

Séculos depois, outro prisioneiro, agora à beira da morte, faz o mesmo pedido: o ladrão arrependido, crucificado ao lado de Cristo, suplica: “Lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino” (Lucas 23:42). E Jesus responde de imediato: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.

Dois clamores idênticos.

Duas respostas diferentes.

Mas uma só lição: a lembrança verdadeira vem de Deus, e o tempo da resposta é o tempo da graça.

José amadurece na espera — aprende que o silêncio de Deus é também forma de cuidado. O ladrão é acolhido na urgência — prova que a misericórdia não se atrasa quando a alma se abre. Em ambos, Deus não falha: apenas decide o momento exato de agir.

A tentação de esperar na horizontal é grande. Queremos ser lembrados, reconhecidos, recompensados — e, muitas vezes, sofremos quando o retorno não vem. Mas o Evangelho nos convida à inversão da lógica: não esperamos das mãos que tocamos, mas das mãos que não vemos.

Quando a expectativa está em Deus, a alma não se frustra, porque Ele jamais se esquece. Quando a fé se firma na vertical, a horizontal encontra sentido: o amor ao próximo deixa de ser moeda de troca e se torna expressão de gratidão.

Em última instância, a vida cristã é uma arte de alinhar o olhar. Servimos na terra, mas olhamos para o céu. Fazemos o bem aqui, mas esperamos dali. Aquele que aprendeu a esperar na vertical jamais se decepciona com o silêncio dos homens, porque ouve o sussurro constante da fidelidade divina.

Deus não falhou com José, apenas o amadureceu.

Deus não tardou ao ladrão, apenas o acolheu.

Ambos receberam resposta — um no tempo da História, outro no instante da Eternidade. E assim aprendemos que Deus sempre lembra, ainda que os homens se esqueçam.

Por isso, sirva na horizontal, mas espere na vertical.

Porque quem confia em Deus nunca espera em vão.

 

CSTF

 

Fonte: https://www.facebook.com/groups/752717255177909/?locale=pt_BR

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