A Lei da Retribuição entre José e o
ladrão da cruz
“Entrega o teu caminho ao Senhor,
confia nele, e o mais Ele fará”. (Salmo 37:5)
A fé cristã se sustenta sobre dois
eixos: o horizontal do amor ao próximo e o vertical da esperança em Deus. No
primeiro, servimos, acolhemos e construímos relações; no segundo, esperamos,
confiamos e nos orientamos para o alto. O problema surge quando confundimos os
planos — quando, servindo horizontalmente, começamos também a esperar
horizontalmente.
Preste atenção para que não entenda
esta reflexão como uma desconstrução. Não se trata de negar a importância das
pessoas, mas de reorientar a fonte da nossa esperança. Somos chamados a tocar
Deus servindo o outro, mas a expectativa da recompensa, do reconhecimento e do
retorno deve permanecer voltada para Deus. É na vertical que a alma encontra o
eixo da sua confiança.
A chamada Lei da Retribuição é uma
das mais antigas intuições espirituais da humanidade: tudo o que fazemos
retorna de algum modo, o bem e o mal encontram resposta. Mas, na teologia
bíblica, essa lei passa por uma purificação decisiva — ela deixa de ser
mecânica para tornar-se pessoal. A retribuição não vem das circunstâncias, mas
de Deus.
Por isso, ainda que sejamos
instrumentos uns dos outros, a fonte de toda recompensa permanece divina. O
cristão é convidado a agir na horizontal, mas esperar na vertical. Fazer o bem,
sim, mas fazer para Deus. Servir, sim, mas sem esperar retorno imediato dos
homens.
Quando a expectativa se volta aos
outros, a alma se desgasta; quando se volta a Deus, a alma descansa. Essa é a
espiritualidade madura: servir com liberdade, confiar com paciência.
A Bíblia oferece dois retratos
belíssimos dessa lógica divina:
Primeiro, José, o sonhador traído,
lançado no cárcere, pede a um oficial reinstalado no cargo: “Lembra-te de mim”
(Gênesis 40:14). O pedido é legítimo, humano, justo — mas o homem o esquece por
dois longos anos.
Séculos depois, outro prisioneiro,
agora à beira da morte, faz o mesmo pedido: o ladrão arrependido, crucificado
ao lado de Cristo, suplica: “Lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino” (Lucas
23:42). E Jesus responde de imediato: “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”.
Dois clamores idênticos.
Duas respostas diferentes.
Mas uma só lição: a lembrança
verdadeira vem de Deus, e o tempo da resposta é o tempo da graça.
José amadurece na espera — aprende
que o silêncio de Deus é também forma de cuidado. O ladrão é acolhido na
urgência — prova que a misericórdia não se atrasa quando a alma se abre. Em
ambos, Deus não falha: apenas decide o momento exato de agir.
A tentação de esperar na horizontal é
grande. Queremos ser lembrados, reconhecidos, recompensados — e, muitas vezes,
sofremos quando o retorno não vem. Mas o Evangelho nos convida à inversão da
lógica: não esperamos das mãos que tocamos, mas das mãos que não vemos.
Quando a expectativa está em Deus, a
alma não se frustra, porque Ele jamais se esquece. Quando a fé se firma na
vertical, a horizontal encontra sentido: o amor ao próximo deixa de ser moeda
de troca e se torna expressão de gratidão.
Em última instância, a vida cristã é
uma arte de alinhar o olhar. Servimos na terra, mas olhamos para o céu. Fazemos
o bem aqui, mas esperamos dali. Aquele que aprendeu a esperar na vertical
jamais se decepciona com o silêncio dos homens, porque ouve o sussurro
constante da fidelidade divina.
Deus não falhou com José, apenas o
amadureceu.
Deus não tardou ao ladrão, apenas o
acolheu.
Ambos receberam resposta — um no
tempo da História, outro no instante da Eternidade. E assim aprendemos que Deus
sempre lembra, ainda que os homens se esqueçam.
Por isso, sirva na horizontal, mas
espere na vertical.
Porque quem confia em Deus nunca
espera em vão.
CSTF
Fonte: https://www.facebook.com/groups/752717255177909/?locale=pt_BR

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