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domingo, 22 de fevereiro de 2026

A Necessidade de Orar e Nunca Desistir



Lucas 18:1-8

 

Jesus contou a parábola do juiz iníquo com um propósito muito claro. Lucas já nos entrega a chave de leitura logo na abertura do texto: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer”. Não é apenas uma história interessante, nem somente uma lição moral sobre persistência. É ensino espiritual profundo sobre dependência de Deus, perseverança na fé e confiança no Senhor em meio à aflição.

A palavra traduzida como “dever” ou “necessidade” ali carrega a ideia de algo indispensável, algo que não pode ser negligenciado. No grego aparece o termo que frequentemente indica necessidade divina, aquilo que faz parte do propósito soberano de Deus. Em Lucas 9:22, por exemplo, Jesus diz que “é necessário que o Filho do Homem padeça”. Não era opcional, fazia parte do plano redentor. Da mesma forma, aqui Jesus afirma que orar sempre é algo necessário para a vida espiritual. Não é acessório da fé, é parte essencial dela.

Isso já nos confronta. Muitas vezes tratamos a oração como complemento, algo para quando sobra tempo ou quando a situação aperta. Jesus ensina o contrário. Orar continuamente é expressão de dependência real do Senhor. Quem compreende sua própria fragilidade e a grandeza de Deus entende que precisa viver em constante comunhão com Ele.

Logo depois Jesus acrescenta: “e nunca esmorecer”. A ideia aqui é não desfalecer, não perder o ânimo, não deixar o coração se render ao cansaço espiritual. A Escritura reforça essa perspectiva em vários textos. Em Lucas 2:37 vemos Ana, a profetisa, servindo a Deus com jejuns e orações noite e dia. Paulo também ensina: “orai sem cessar”. E em 2 Coríntios 4:1 ele afirma: “tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos”. A perseverança na oração não nasce da força humana, nasce da misericórdia de Deus que sustenta o seu povo.

É importante perceber o contexto da parábola. Jesus fala de uma viúva que buscava justiça contra os seus adversários. Naquele tempo, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da sociedade. Muitas vezes sem proteção, sem recursos, sem influência. Ela tinha uma causa legítima, havia adversários que a oprimiam, e o único caminho era recorrer ao juiz.

O problema é que esse juiz é descrito como alguém que não temia a Deus nem respeitava homem algum. Era alguém sem compromisso com a justiça verdadeira, alguém movido apenas por interesses próprios. Inicialmente ele se recusa a atender a viúva. Porém ela insiste, continua vindo, continua pedindo, não desiste da sua causa. Até que o juiz decide julgá-la favoravelmente, não por amor à justiça, nem por compaixão, mas para se livrar da insistência dela.

Jesus então faz um contraste, não uma comparação direta. Ele não está dizendo que Deus é como aquele juiz, mas exatamente o contrário. Se até um juiz injusto, sem temor e sem compaixão, acaba respondendo diante da insistência, quanto mais Deus, que é justo, santo, amoroso e fiel, ouvirá o clamor do seu povo.

Aqui está um ponto pastoral importante. Muitas vezes pensamos que insistir em oração significa tentar convencer Deus, como se Ele fosse resistente ou indiferente. A parábola não ensina isso. Ela ensina perseverança baseada na confiança no caráter de Deus. Não oramos para mudar Deus, oramos porque Deus nos transforma enquanto oramos, alinhando nosso coração à sua vontade.

O próprio texto aponta nessa direção quando diz que Deus fará justiça aos seus escolhidos que clamam a Ele dia e noite. Esse clamor contínuo não é tentativa de manipulação divina, é expressão de fé perseverante em meio às lutas. A vida cristã envolve oposição, envolve adversários espirituais, envolve sofrimento neste mundo marcado pelo pecado. A oração constante nos mantém firmes, lembrando quem Deus é e quem nós somos diante dele.

Outra diferença marcante entre o juiz e Deus aparece na motivação. O juiz atende para não ser importunado. Deus atende porque ama. Ele não se incomoda com nossas orações sinceras, pelo contrário, há prazer em ouvir seus filhos quando oram segundo a sua vontade. Isso não significa que toda oração receberá exatamente o que pedimos, mas significa que toda oração feita em submissão ao Senhor será ouvida e respondida de acordo com sua sabedoria perfeita.

Existe também uma dimensão espiritual profunda aqui. À medida que perseveramos na oração, nosso coração vai sendo conformado à vontade de Deus. A regeneração nos dá nova disposição interior, a santificação progressiva nos ensina a desejar o que Deus deseja. Assim, nossas petições vão se tornando cada vez mais alinhadas com a Palavra. Orar sempre não apenas traz respostas externas, traz transformação interna.

No final da parábola Jesus faz uma pergunta solene: “Quando vier o Filho do Homem, achará fé na terra?” Isso mostra que perseverança na oração está ligada diretamente à perseverança na fé. Quem deixa de orar facilmente esfria espiritualmente. Quem permanece em oração constante demonstra confiança real no Senhor, mesmo quando as circunstâncias parecem contrárias.

A aplicação para nós é clara. Vivemos tempos de distração, ansiedade e imediatismo. Muitas vezes queremos respostas rápidas e soluções instantâneas. O ensino de Jesus nos chama a uma espiritualidade perseverante, dependente e constante. Orar sempre não significa repetir palavras sem reflexão, significa viver em comunhão contínua com Deus, levando a Ele nossas dores, nossas lutas, nossas alegrias e nossos anseios.

Também somos lembrados de que temos adversários. Não apenas pessoas ou circunstâncias difíceis, mas uma realidade espiritual de oposição ao povo de Deus. A oração é um dos meios pelos quais o Senhor sustenta seus filhos nessa batalha. Não é fuga da realidade, é enfrentamento espiritual com confiança no Deus soberano.

E acima de tudo, esse texto nos conduz a Cristo. Ele é quem garantiu nossa reconciliação com Deus. Pela sua obra redentora temos acesso ao Pai. Sem Cristo não há verdadeira oração aceitável, não há comunhão restaurada, não há esperança firme. A perseverança na oração nasce da certeza de que fomos alcançados pela graça e de que temos um Salvador que intercede por nós.

Por isso a necessidade não é apenas orar mais, mas voltar-se a Cristo com arrependimento e fé. Reconhecer nossa dependência, abandonar a autossuficiência, confiar no Senhor de todo o coração. Quem entende a própria condição pecaminosa e a suficiência de Cristo encontra motivação real para viver em oração constante.

Que o Senhor nos conceda essa perseverança. Que não esmoreçamos diante das lutas, que não abandonemos a oração quando as respostas demoram, que não percamos a fé quando os dias são difíceis. Deus é justo, amoroso e fiel. Ele ouve o clamor do seu povo. E em Cristo temos plena segurança de que nossa esperança não será frustrada.

Que Deus nos ajude!

 

(um texto de Alex Mendes)

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