Lucas 18:1-8
Jesus contou a parábola do juiz
iníquo com um propósito muito claro. Lucas já nos entrega a chave de leitura
logo na abertura do texto: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar
sempre e nunca esmorecer”. Não é apenas uma história interessante, nem somente
uma lição moral sobre persistência. É ensino espiritual profundo sobre dependência
de Deus, perseverança na fé e confiança no Senhor em meio à aflição.
A palavra traduzida como “dever” ou
“necessidade” ali carrega a ideia de algo indispensável, algo que não pode ser
negligenciado. No grego aparece o termo que frequentemente indica necessidade
divina, aquilo que faz parte do propósito soberano de Deus. Em Lucas 9:22, por
exemplo, Jesus diz que “é necessário que o Filho do Homem padeça”. Não era
opcional, fazia parte do plano redentor. Da mesma forma, aqui Jesus afirma que
orar sempre é algo necessário para a vida espiritual. Não é acessório da fé, é
parte essencial dela.
Isso já nos confronta. Muitas vezes
tratamos a oração como complemento, algo para quando sobra tempo ou quando a
situação aperta. Jesus ensina o contrário. Orar continuamente é expressão de
dependência real do Senhor. Quem compreende sua própria fragilidade e a
grandeza de Deus entende que precisa viver em constante comunhão com Ele.
Logo depois Jesus acrescenta: “e
nunca esmorecer”. A ideia aqui é não desfalecer, não perder o ânimo, não deixar
o coração se render ao cansaço espiritual. A Escritura reforça essa perspectiva
em vários textos. Em Lucas 2:37 vemos Ana, a profetisa, servindo a Deus com
jejuns e orações noite e dia. Paulo também ensina: “orai sem cessar”. E em 2
Coríntios 4:1 ele afirma: “tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos
foi feita, não desfalecemos”. A perseverança na oração não nasce da força
humana, nasce da misericórdia de Deus que sustenta o seu povo.
É importante perceber o contexto da
parábola. Jesus fala de uma viúva que buscava justiça contra os seus adversários.
Naquele tempo, a viúva representava uma das figuras mais vulneráveis da
sociedade. Muitas vezes sem proteção, sem recursos, sem influência. Ela tinha
uma causa legítima, havia adversários que a oprimiam, e o único caminho era
recorrer ao juiz.
O problema é que esse juiz é descrito
como alguém que não temia a Deus nem respeitava homem algum. Era alguém sem
compromisso com a justiça verdadeira, alguém movido apenas por interesses
próprios. Inicialmente ele se recusa a atender a viúva. Porém ela insiste, continua
vindo, continua pedindo, não desiste da sua causa. Até que o juiz decide
julgá-la favoravelmente, não por amor à justiça, nem por compaixão, mas para se
livrar da insistência dela.
Jesus então faz um contraste, não uma
comparação direta. Ele não está dizendo que Deus é como aquele juiz, mas
exatamente o contrário. Se até um juiz injusto, sem temor e sem compaixão,
acaba respondendo diante da insistência, quanto mais Deus, que é justo, santo,
amoroso e fiel, ouvirá o clamor do seu povo.
Aqui está um ponto pastoral
importante. Muitas vezes pensamos que insistir em oração significa tentar
convencer Deus, como se Ele fosse resistente ou indiferente. A parábola não
ensina isso. Ela ensina perseverança baseada na confiança no caráter de Deus.
Não oramos para mudar Deus, oramos porque Deus nos transforma enquanto oramos,
alinhando nosso coração à sua vontade.
O próprio texto aponta nessa direção
quando diz que Deus fará justiça aos seus escolhidos que clamam a Ele dia e
noite. Esse clamor contínuo não é tentativa de manipulação divina, é expressão
de fé perseverante em meio às lutas. A vida cristã envolve oposição, envolve
adversários espirituais, envolve sofrimento neste mundo marcado pelo pecado. A
oração constante nos mantém firmes, lembrando quem Deus é e quem nós somos
diante dele.
Outra diferença marcante entre o juiz
e Deus aparece na motivação. O juiz atende para não ser importunado. Deus
atende porque ama. Ele não se incomoda com nossas orações sinceras, pelo
contrário, há prazer em ouvir seus filhos quando oram segundo a sua vontade.
Isso não significa que toda oração receberá exatamente o que pedimos, mas
significa que toda oração feita em submissão ao Senhor será ouvida e respondida
de acordo com sua sabedoria perfeita.
Existe também uma dimensão espiritual
profunda aqui. À medida que perseveramos na oração, nosso coração vai sendo
conformado à vontade de Deus. A regeneração nos dá nova disposição interior, a
santificação progressiva nos ensina a desejar o que Deus deseja. Assim, nossas
petições vão se tornando cada vez mais alinhadas com a Palavra. Orar sempre não
apenas traz respostas externas, traz transformação interna.
No final da parábola Jesus faz uma
pergunta solene: “Quando vier o Filho do Homem, achará fé na terra?” Isso
mostra que perseverança na oração está ligada diretamente à perseverança na fé.
Quem deixa de orar facilmente esfria espiritualmente. Quem permanece em oração
constante demonstra confiança real no Senhor, mesmo quando as circunstâncias
parecem contrárias.
A aplicação para nós é clara. Vivemos
tempos de distração, ansiedade e imediatismo. Muitas vezes queremos respostas
rápidas e soluções instantâneas. O ensino de Jesus nos chama a uma
espiritualidade perseverante, dependente e constante. Orar sempre não significa
repetir palavras sem reflexão, significa viver em comunhão contínua com Deus,
levando a Ele nossas dores, nossas lutas, nossas alegrias e nossos anseios.
Também somos lembrados de que temos adversários.
Não apenas pessoas ou circunstâncias difíceis, mas uma realidade espiritual de
oposição ao povo de Deus. A oração é um dos meios pelos quais o Senhor sustenta
seus filhos nessa batalha. Não é fuga da realidade, é enfrentamento espiritual
com confiança no Deus soberano.
E acima de tudo, esse texto nos
conduz a Cristo. Ele é quem garantiu nossa reconciliação com Deus. Pela sua
obra redentora temos acesso ao Pai. Sem Cristo não há verdadeira oração
aceitável, não há comunhão restaurada, não há esperança firme. A perseverança
na oração nasce da certeza de que fomos alcançados pela graça e de que temos um
Salvador que intercede por nós.
Por isso a necessidade não é apenas
orar mais, mas voltar-se a Cristo com arrependimento e fé. Reconhecer nossa dependência,
abandonar a autossuficiência, confiar no Senhor de todo o coração. Quem entende
a própria condição pecaminosa e a suficiência de Cristo encontra motivação real
para viver em oração constante.
Que o Senhor nos conceda essa
perseverança. Que não esmoreçamos diante das lutas, que não abandonemos a
oração quando as respostas demoram, que não percamos a fé quando os dias são
difíceis. Deus é justo, amoroso e fiel. Ele ouve o clamor do seu povo. E em
Cristo temos plena segurança de que nossa esperança não será frustrada.
Que Deus nos ajude!
(um texto de Alex Mendes)

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