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domingo, 25 de outubro de 2026

O Veneno da Indignação


O ritual repete-se a cada amanhecer, logo após o primeiro gole de café ou mesmo durante a primeira cuia de chimarrão. Antes mesmo que o corpo desperte por completo, os olhos buscam a tela do celular, ansiosos pelo combustível do dia: a próxima indignação. Bastam alguns segundos de leitura sobre o último escândalo de Brasília, a declaração cínica do deputado da oposição ou a manobra de bastidores do partido rival para que o estômago se contraia. O sangue ferve. Uma fúria quase sagrada toma conta do peito, justificada pela certeza absoluta de se estar do lado certo da História.

Nas redes sociais e nos debates de calçada, a política deixou de ser a arte da convivência para se transformar em um tribunal de inquisição permanente. Já não se discutem projetos de saneamento ou reformas tributárias; discute-se o caráter moral do oponente, que precisa ser desmascarado, humilhado e extirpado do convívio social. O adversário político não é mais alguém que pensa diferente sobre a gestão da máquina pública; ele é o próprio mal encarnado. E, diante do mal, a única resposta permitida parece ser o rancor vigilante.

Essa dinâmica de aniquilação mútua atinge o seu ápice no momento mais sagrado da democracia: o voto. Diante da urna, o cidadão já não escolhe um projeto de futuro, mas uma arma de destruição. É aí que a armadilha do ressentimento se institucionaliza. Quando digitamos o número de um candidato notoriamente ruim, incapaz ou moralmente falido, apenas pelo prazer mórbido de ver o outro — igualmente nocivo — ser derrotado, operamos na mais pura essência do autoengano. Justificamos a escolha do nosso próprio carrasco sob o pretexto de que ele nos vingará do vizinho. Apertamos a confirmação na urna e bebemos, de bom grado, o cálice de um governo medíocre, acreditando ingenuamente que a nossa dose de sofrimento será menor do que a punição infligida ao rival. É o voto transformado em suicídio coletivo: tomamos o veneno esperando que a oposição morra.

Nutrimos esse ódio de estimação como se ele fosse uma armadura ou uma virtude cívica. Acordamos pensando no contra-ataque retórico e dormimos ensaiando o linchamento virtual do dia seguinte. No entanto, enquanto a mente desenha o cenário ideal em que o inimigo finalmente cai em desgraça, a realidade do corpo cobra o seu preço. A gastrite ataca, o sono foge, a paciência com os filhos esgota-se na primeira palavra. Guardar ressentimento é exatamente como tomar veneno esperando que o outro morra.

A ironia da política moderna é que o alvo da nossa fúria sequer sabe da nossa existência. O governante corrupto continua usufruindo de seus privilégios, o militante profissional do outro espectro segue lucrando com o engajamento do algoritmo, e o vizinho que ostenta a bandeira do partido rival dorme o sono dos justos. Enquanto isso, nós — os guardiões da indignação — consumimos o frasco inteiro de cicuta, dia após dia, acreditando que a nossa azia destruirá o palácio do opressor.

Para os que tentam equilibrar a paixão política com a fé cristã, o paradoxo se torna ainda mais agudo. O Evangelho, tantas vezes usado como slogan de campanha ou escudo moral nos debates públicos, é o primeiro a ser crucificado no altar do pragmatismo partidário. Substitui-se o Sermão da Montanha pelo manual da guerrilha cultural. Esquece-se, por conveniência, que a mensagem de Jesus subverteu radicalmente a lógica do poder de sua época não ao tomar o trono de César, mas ao se recusar a adotar os métodos de César.

As Escrituras não deixam margem para o ódio pedagógico ou para o rancor justificável. Quando o Evangelho nos exorta a “orar pelos que vos perseguem” e a “perdoar setenta vezes sete”, não o faz por capricho místico ou passividade covarde, mas por um profundo conhecimento da psicologia humana. O perdão cristão nunca foi uma absolvição jurídica dos erros alheios, nem uma validação da injustiça social. Ele é, antes de tudo, um ato de legítima defesa espiritual. É a recusa solene em permitir que a maldade do outro determine a qualidade do meu próprio coração.

Quando Cristo adverte que “o que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que sai dela”, Ele está apontando diretamente para o veneno destilado nas discussões inflamadas e nos julgamentos sumários que fazemos em nome do bem comum. Ao transformarmos a arena pública em um campo de extermínio moral, acabamos por praticar exatamente os vícios que juramos combater. O puritano que odeia o corrupto com fúria cega torna-se, ele mesmo, corrupto na alma.

A verdadeira emancipação política e espiritual começa quando paramos de beber o cálice da amargura diária. Romper com esse ciclo não significa alienação ou covardia diante das injustiças do mundo. Significa compreender que a transformação social genuína não nasce da bílis, mas da justiça temperada pela misericórdia. Exigir integridade dos governantes e lutar por um país mais justo são deveres legítimos, mas que perdem todo o sentido se, no processo, nos tornarmos monstros moldados pelo rancor.

Ao final do dia, as telas se apagarão, as legislaturas passarão e os heróis e vilões políticos de hoje serão as notas de rodapé dos livros de História de amanhã. O veneno que ingerimos voluntariamente na esperança de punir o mundo, contudo, deixará marcas profundas em nossa própria carne e nas nossas relações mais íntimas. Que possamos, antes que o frasco esvazie de vez, redescobrir a sobriedade do Evangelho: aquela que nos ensina a combater o bom combate sem perder a capacidade de estender a mão, lembrando que a paz de uma nação começa, invariavelmente, na paz do espírito.

 

Saudações,

Kurt Hilbert

 

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