Nos últimos anos tenho falado algumas
vezes sobre o tema do dom de línguas, porque esse é um assunto muito presente
no contexto evangélico brasileiro. A tradição pentecostal, especialmente de
igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Quadrangular, Nazareno e
diversas outras comunidades continuístas, afirma que o dom de línguas continua
da mesma forma que acontecia nos dias dos apóstolos.
Para muitos irmãos sinceros, aquilo
que acontece nos cultos hoje, com sons desconexos, vocalizações repetitivas e
expressões extáticas, seria exatamente o mesmo fenômeno que vemos em Atos 2 e
em 1 Coríntios 14. Mas isso não corresponde ao ensino das Escrituras.
A primeira coisa que precisamos
lembrar é que a Bíblia não fala em línguas estranhas no sentido de sons misteriosos,
angelicais ou esquisitos. A palavra usada no Novo Testamento significa línguas
estrangeiras, idiomas reais, inteligíveis, apenas desconhecidos para quem
falava. Em Atos 2 isso aparece com absoluta clareza. Cada pessoa ouvia os
discípulos “falando em seu próprio idioma”. O texto chega até a listar as
nações envolvidas. Nada ali é estático ou caótico, é milagre sim, mas milagre
linguístico, não mantras religiosos.
Outro ponto fundamental é entender o
sentido de 1 Coríntios 14. Paulo diz que “quem fala em línguas não fala aos
homens, mas a Deus, porque ninguém o entende”. Muitos usam esse versículo para
justificar que a língua é um idioma celestial secreto. Mas Paulo não está
dizendo isso. Ele está dizendo que, quando alguém fala um idioma que ninguém na
congregação conhece, ninguém consegue entender, então a comunicação vertical é
apenas com Deus, que conhece todos os idiomas.
Se eu entrar em uma igreja aqui em
Piracicaba e começar a falar em mandarim ou em holandês, ninguém vai entender,
então no sentido prático, eu não estaria falando aos homens, mas apenas Deus
entenderia. É isso que Paulo está ensinando. Ele não está criando um idioma
celestial próprio, mas mostrando o problema de alguém falar uma língua
estrangeira sem interpretação dentro da assembleia.
Além disso, Paulo deixa claro que as
línguas deveriam ser usadas apenas com interpretação e sempre com ordem. Dois
ou três, um de cada vez, e se não houvesse intérprete deveria ficar calado.
Isso elimina completamente a prática moderna das igrejas pentecostais onde
várias pessoas falam ao mesmo tempo, sem ordem e sem interpretação. Não são
sugestões de Paulo, são ordens apostólicas. A igreja não pode simplesmente
ignorá-las.
Mas há outra questão ainda mais ampla
que muitos não percebem. As pessoas assumem que o dom de línguas de Atos 2 e de
1 Coríntios 14 é o mesmo fenômeno que elas praticam hoje, e que esse dom teria
atravessado toda a história da igreja intacto. Mas isso não corresponde à
Bíblia. Quando lemos o livro de Atos percebemos que as línguas tinham um papel
específico e histórico, ligado diretamente ao avanço do evangelho.
Jesus disse que os discípulos seriam
suas testemunhas em Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra. Essa
progressão aparece no livro de Atos e, em cada marco desse avanço, o Espírito
Santo confirma seu movimento. Primeiro entre os judeus em Jerusalém, depois na
Judeia, depois entre os samaritanos em Samaria, e por fim entre os gentios
representados por Cornélio.
Esse episódio de Cornélio é tão
importante que Atos dedica dois capítulos inteiros para explicar o que estava
acontecendo. Ali o Espírito Santo se manifesta da mesma forma porque Deus
estava mostrando publicamente que os gentios tinham sido incluídos no mesmo
corpo e na mesma promessa.
Depois de Cornélio, o dom de línguas
não aparece mais como fenômeno recorrente na vida da igreja. Ele tinha um
propósito, e esse propósito foi cumprido. Esse ponto é fundamental para
desmontar a ideia de uma suposta segunda bênção, que afirma que o cristão se
converte e, depois, em um momento posterior, recebe o batismo com o Espírito
Santo e como prova fala em línguas. Isso não existe na Bíblia.
O Novo Testamento afirma que todo
crente é selado com o Espírito Santo no momento da conversão. Ele é regenerado,
justificado e adotado como filho de Deus, e o Espírito Santo passa a habitar
nele como selo e garantia. O que existe depois da conversão é crescimento na
santificação, amadurecimento espiritual, combate ao pecado e perseverança, mas
não uma segunda experiência que transforme um crente comum em um crente de
segunda etapa.
Também é importante lembrar que a
ideia de língua dos anjos não encontra fundamento bíblico real. Paulo em 1
Coríntios 13 usa uma hipérbole evidente. Ele diz ainda que eu falasse as
línguas dos homens e dos anjos, ou seja, mesmo que eu tivesse domínio de todos
os idiomas humanos e celestiais, sem amor não teria valor. Ele não está dizendo
que fala tais línguas. E, na Escritura, todas as vezes que anjos falaram com
seres humanos, falaram claramente na língua que a pessoa entendia. Não existe
nenhum exemplo de fala angelical ininteligível.
Agora, existe outro aspecto pastoral
extremamente importante. Muitos irmãos que acreditam possuir esse dom não fazem
isso por maldade. Eles apenas reproduzem aquilo que aprenderam desde sempre.
Pessoas que cresceram em igrejas pentecostais escutam desde criança esses sons
durante o culto. O ambiente emocional, a liturgia, o exemplo dos líderes e a
carga coletiva criam um tipo de condicionamento natural. Esse fenômeno ocorre
também em religiões pagãs, seitas e grupos místicos.
No momento de emoção intensa, o
cérebro reproduz aquilo que memorizou. Eu já conversei com cristãos sinceros
que praticavam essas vocalizações e que, depois de estudarem a Bíblia com mais
profundidade, perceberam que não se tratava de um dom espiritual, mas
simplesmente de sons aprendidos e repetidos durante anos. E eles mesmos
confessaram isso com sinceridade.
Reconhecer isso não diminui a fé
dessas pessoas, pelo contrário, mostra como a sinceridade precisa estar unida à
verdade. A sinceridade sem verdade pode levar a práticas bem intencionadas, mas
equivocadas. Por isso nosso compromisso precisa ser sempre com a Palavra e não
com tradições humanas, por mais emocionantes que sejam.
O que vemos nas igrejas hoje não é o
mesmo fenômeno de Atos e nem segue as regras claras que Paulo estabeleceu. Se
fosse o mesmo dom, ainda assim teria de ser usado com ordem, com interpretação
e com restrição, algo que claramente não ocorre. E se não é o mesmo dom, então
é ainda mais grave, porque se usa o nome do Espírito Santo para validar práticas
que não têm apoio bíblico.
Por isso, o chamado aqui é simples e
amoroso. Examine as Escrituras com profundidade. Coloque a Palavra de Deus
acima da emoção, acima da tradição, acima do costume. O verdadeiro mover do
Espírito nunca contradiz a Bíblia que Ele mesmo inspirou. Que nossa fé seja
firme, que nosso culto seja bíblico e que nosso coração esteja ancorado na
verdade.
Que Deus nos ajude!
(um texto de Alex Mendes)

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