Deus perdoou o mundo, pois, em
Cristo, o reconciliou consigo mesmo.
A questão é: você também já perdoou o
mundo?
A gente fica sempre falando em
perdoar o irmão. Mas, para perdoar o irmão, eu tenho que antes perdoar o mundo.
Boa parte de nossas raivas e
ressentimentos vêm daquilo que a gente chama de “perversidades da vida”, ou
também de “injustiças do mundo”, ou ainda de “catástrofes malignas”.
O fato é que nossos ressentimentos
são mais profundos do que sabemos. As pessoas têm raiva de onde nasceram, da
família que tiveram, da condição econômica na qual viveram, das lutas e durezas
da sobrevivência, de defeitos físicos ou de malignidades que caem na forma de
tragédias...
Há também aqueles que, apesar de
ricos, preferissem ter nascido pobres se, na troca, viessem pais amorosos, e
não os distantes e indiferentes que possuem.
Então, alguns culpam o Estado, outros
a História, outros a Religião, outros o país, a raça, o continente, a nação, o
povo, os pais, os irmãos, os vizinhos e quem passar por perto.
Mas essa raiva é raiva do mundo e das
injustiças que nele nos acontecem.
O mundo que eu tenho que amar é a
criação. O mundo que eu tenho que não-amar é o sistema de injustiças e iniquidades.
E o mundo que eu tenho que perdoar é o meu mundo, feito de humanos como eu, e
que deliberada ou inconscientemente pratica o que eu pratico.
Eu tenho que perdoar a humanidade a
fim de poder me perdoar e entender o meu irmão.
Quando todo o ressentimento do mundo
é tirado de nós, o coração começa a não ter mais reclamações a fazer.
Aqui acaba a raiz de toda
autopiedade, que é também o fundamento de todo ressentimento e o gerador de
todas as invejas.
Todo invejoso é um ser ressentido com
o mundo, com as oportunidades que acha que não teve, enquanto outros tiveram;
com os dons e talentos que outros possuem, enquanto a mesma coisa não lhe
acontece nem com muito esforço; com qualquer coisa que aconteça ao outro e a
pessoa julgue que não era para o outro... Ou por você se achar melhor que o
outro ou por se julgar bom demais e, ainda assim, não ter o que deseja, de tal
modo que quem quer que tenha o objeto do desejo de tal pessoa passará a ser
objeto de inveja, que é, de fato, ressentimento com o mundo e, no fim da linha,
raiva de Deus.
Deus não me deve nada. Ele me deu a vida;
o que mais desejo? Ele me redimiu antes de me criar; o que mais desejo? Ele me
dá fé quando não há razão nenhuma para confiar; o que mais desejo?
Eu sou uma orgia de graça divina; sou
a migalha do eterno banquete; sou... nada e, ao mesmo tempo, sou parte do
significado de tudo o que existe.
Meu Deus! Que posso eu mais querer? O
Senhor é a minha porção e o meu cálice.
O Senhor é o meu Pastor e de nada me
ressentirei, e de ninguém terei inveja.
Deus se reconciliou com o mundo em
Cristo?
Se assim é, a fim de que eu possa ser
Seu embaixador, preciso também ter perdoado o mundo todo. Só assim chego
reconciliado a fim de anunciar a reconciliação.
Somente gente reconciliada com Deus e
com a humanidade pode levar Boa Nova na vida e na boca. Do contrário, até a
fala sobre amor tem cheiro de ódio disfarçado de bondade.
Quem lê entenda!
(um texto de Caio Fábio D’Araújo
Filho)

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