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domingo, 22 de março de 2026

Amar Como Cristo Amou, Mesmo Quando Não Há Retorno


 

Há algo na vida cristã que sempre me marcou profundamente, algo que considero parte da minha essência, e eu sei que isso não é mérito meu. Não é da minha índole natural, não nasceu da minha força, não veio de boas intenções humanas. É fruto da regeneração, é obra do Espírito Santo transformando um coração que, por si mesmo, só saberia olhar para si, defender-se, e buscar o próprio interesse.

Eu sei das minhas falhas. Eu sei dos meus pecados. Sei das áreas da minha vida em que ainda não alcancei a maturidade necessária, das coisas que ainda preciso abandonar, ajustar e vencer. Como todo cristão regenerado, carrego a consciência de que preciso, a cada dia, morrer mais para o pecado e viver mais para Cristo. Mas, mesmo entendendo minha imperfeição, há um aspecto da vida cristã que sempre ardeu forte em mim: fazer o bem ao próximo sem esperar absolutamente nada em troca.

E é aqui que, muitas vezes, surge o conflito com a mentalidade do mundo e, às vezes, até com a mentalidade de cristãos que ainda não compreenderam plenamente essa verdade. Não poucas vezes ouvi:

“Para de ser bobo”.

“Você faz demais pelos outros”.

“As pessoas se aproveitam de você”.

“Ninguém merece tanto”.

“Você precisa pensar mais em você”.

“Aprende a dizer não, o não é libertador”.

Essa última frase, então, virou lema de uma geração. Para muitos, dizer “não” é a chave para uma vida equilibrada, saudável e cheia de paz.

Mas quando eu olho para as Escrituras, não consigo enxergar isso assim.

Não consigo ver o “não” como libertador.

Pelo contrário, para mim, o eu é que precisa ouvir o não.

A verdadeira libertação não vem quando digo “não” aos outros, mas quando digo “não” a mim mesmo, às minhas vontades, ao meu conforto, ao meu ego, e digo “sim” ao chamado de Cristo para amar.

E quando falo isso, sempre tem alguém que insiste:

“Mas a pessoa não merece”.

“Ela nem reconhece o que você faz”.

“Ela não retribui”.

“Ela faz mal para os outros”.

“Ela não tem maturidade”.

“Ela não tem nada para te oferecer”.

E é exatamente aqui que o Evangelho brilha.

Porque o nosso Senhor não fez o bem a quem era bom. Ele não entregou Sua vida por quem amava. Ele não Se sacrificou por quem tinha algo a oferecer. Cristo morreu por quem não merecia. Cristo amou quem não amava. Cristo Se entregou por quem não tinha nada para retribuir.

E Paulo deixa isso claro em Romanos 5:6-10: “Porque Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente alguém morreria por um justo, pois poderá ser que pelo homem bom alguém ainda ouse morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”.

Cristo morreu por fracos, Cristo morreu por ímpios, Cristo morreu por pecadores, Cristo morreu por inimigos.

Ele não morreu por gente que O tratava bem, que O honrava, que O amava. Ele morreu por quem cuspia em Sua graça, por quem rejeitava Sua bondade, por quem não tinha nada para oferecer senão inimizade.

Se Ele fez isso quando éramos Seus inimigos, como poderia eu exigir que as pessoas “mereçam” meu amor para que eu as ame?

É claro que não estou dizendo que eu faço o bem para inimigos pessoais o tempo todo, isso é difícil, raro e exige graça extraordinária. Mas mesmo no cotidiano, fazemos o bem para pessoas que amamos, gente querida, próxima, pela qual temos carinho, mas que, por imaturidade espiritual, falta de regeneração ou limitação humana, simplesmente não consegue retribuir. Às vezes a única coisa que ela pode oferecer é um “Valeu, obrigado, hein!” E está tudo bem. Amar assim é imitar Cristo.

E esse é um ponto fundamental: às vezes aquela pessoa não retribui não porque é ingrata, mas porque ainda não alcançou o nível de maturidade que, pela graça de Deus, nós já alcançamos. Não porque somos melhores, mas porque o Espírito Santo já trabalhou em nós aquilo que ainda vai trabalhar nela. Talvez você tenha caminhado alguns degraus a mais na santificação, e isso é pura graça, não mérito.

Paulo trata disso em Romanos 15:1: “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as fraquezas dos fracos e não agradar a nós mesmos”.

Os fortes existem para carregar os fracos, não para exigir que eles sejam fortes também.

Deus nos dá maturidade não para sermos soberbos, mas para servirmos melhor.

E logo em seguida, Paulo cita o Salmo 69:9: “O zelo da tua casa me consumirá”.

Em João 2:17, os discípulos entendem que esse zelo se cumpre em Cristo.

O zelo pela casa do Pai, que é zelo pela adoração verdadeira, sempre nos leva a abrir mão de nós mesmos para o bem do próximo.

Porque amar a Deus de todo o coração (Mateus 22:37-40) inevitavelmente transborda em amar o próximo, e amar o próximo significa, quase sempre, abrir mão de algo em nosso favor para abençoar alguém que não tem nada a nos oferecer.

O mundo não entende isso.

A carne não entende isso.

O coaching moderno não entende isso.

Mas o regenerado entende.

O amor verdadeiro não nasce da autodeterminação, nasce do Espírito Santo.

É Ele quem nos faz amar o que não amávamos, servir quem não retribui, fazer o bem sem esperar retorno, e agir como Cristo agiu quando nós ainda éramos incapazes de responder ao amor d’Ele.

E quando vivemos assim, não estamos nos tornando bobos, estamos nos tornando parecidos com Jesus.

Não estamos sendo explorados, estamos sendo moldados.

Não estamos perdendo tempo, estamos pregando sem palavras.

Porque, sim, eu sempre acreditei que pregar exige palavras, e é verdade. Mas quando alguém já ouviu sobre Jesus, já sabe que Ele morreu na cruz, já tem alguma noção do Evangelho, então o seu modo de agir prega Cristo. A sua atitude revela o amor de Deus de uma forma que palavra nenhuma alcança.

Quando você ama alguém que não pode te oferecer nada, você está fazendo exatamente o que Cristo fez quando você não podia oferecer absolutamente nada a Ele.

E isso, isso sim, é libertador!

Libertador não porque eu digo “não” aos outros, mas porque digo “não” ao meu ego, e “sim” ao chamado de Cristo.

Libertador porque já não dependo do retorno humano, mas da graça divina.

Libertador porque amar assim é viver o Evangelho na prática.

E, pela graça, enquanto o Espírito Santo trabalha em nós, vamos entendendo que a maturidade cristã não nos dá o direito de exigir retorno, mas a capacidade de amar sem retorno.

Essa é a vida que Cristo viveu por nós.

Essa é a vida que Ele nos chama a viver pelos outros.

Que Deus nos ajude!

 

(um texto de Alex Mendes)

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