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domingo, 7 de março de 2021

O Evangelho nas Escrituras e as Escrituras no Evangelho


  

O texto abaixo fala, sobretudo, de como ler as Escrituras, tendo Jesus como centro de tudo, como “chave interpretativa”, afinal, tudo é d’Ele, por Ele e para Ele.

Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os juízos e inescrutáveis os seus caminhos! “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” “Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?” Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém (Romanos 11:33-36).

 

Jesus, a Chave que abre as Escrituras

 

“Cristo é o Mestre, as Escrituras são apenas o servo. A verdadeira prova a submeter todos os Livros é ver se eles operam a vontade de Cristo ou não. Nenhum Livro que não prega Cristo pode ser apostólico, muito embora sejam Pedro ou Paulo seus autores. E nenhum Livro que prega a Cristo pode deixar de ser apostólico, sejam seus autores Judas, Ananias, Pilatos ou Herodes” (Martinho Lutero).

Os evangelhos são narrativas históricas das ações e acontecimentos relacionados a Jesus, bem como de Suas Palavras. O Evangelho, todavia, é um espírito. Os evangelhos são o corpo. O Evangelho é o espírito no corpo.

Para muitos, os evangelhos são apenas narrativas. Para outros, eles são palavras inspiradas. Para muito mais gente ainda, eles são apenas palavras mágicas. E para a maioria, eles são somente os quatro primeiros livros do Novo Testamento, sendo, portanto, parte da Bíblia Sagrada.

Todavia, o Evangelho é espírito e vida. Deus é espírito e, portanto, Suas Palavras são espírito e vida, pois carregam o poder da verdade absoluta e produzem vida onde quer que cheguem.

Para melhor entender, suponha que os evangelhos não tivessem sido escritos. Decerto, sabemos que ainda assim, haveria um Evangelho a ser anunciado até os confins da Terra como boa notícia, visto ser o Evangelho um espírito, e não um livro.

Assim, o espírito do Evangelho é só uma forma de expressar-se acerca da essência da Palavra. É a plenitude da revelação. Trata-se da forma de interpretação bíblica que olha para Jesus Cristo como a chave hermenêutica dessa revelação.

De modo algum se está dizendo aqui que só Jesus interessa na Bíblia, mas, por outro lado, nada interessa senão a partir d’Ele e nada é Palavra de Deus se não for compatível com Ele, por mais “bíblico” e “teológico” que seja!

Leio a Bíblia a partir de Jesus e não Jesus a partir da Bíblia. Assim, meus livros não são considerados “teológicos” pelos teólogos, posto que nesses escritos raramente haja uma designação hermenêutica teologicamente aceitável; e nem tampouco há neles sistematizações que busquem o fechamento lógico de qualquer pacote de pensamento.

Isso porque creio que Jesus – que é Deus manifesto entre nós – abre as Escrituras para nós. Cristo é a síntese das Escrituras e o Espírito da graça, é o agente hermenêutico que me aproxima do texto com a fé de que encontrarei a Palavra.

É a partir daí, então, que se interpreta a antiga aliança, os profetas e todo o Novo Testamento. Isso porque Ele é a Palavra! A encarnação absoluta dela, o verbo vivo de Deus, cheio de graça e verdade! E as próprias palavras de Jesus só podem ser entendidas se tiverem sua concreção no Evangelho vivido por Jesus de Nazaré.

Veja o livro de Atos dos Apóstolos: é um livro de atos, de ações. Mas sabemos que os únicos atos absolutos e irretocáveis feitos na Terra são os atos de Jesus. Portanto, há Evangelho em Atos, mas Atos não é o Evangelho. Digo isto porque se os critérios de Jesus forem aplicados aos atos dos apóstolos, os próprios apóstolos serão sempre relativizados.

Quando lemos Atos, não se lê o Evangelho da graça – esse só está plenificado em Jesus –, mas a tentativa humana de começar a viver conforme a fé em Jesus. E, em tal processo, há acertos, erros, equívocos, ação do Espírito, infantilidades, ambiguidades, milagres, diferenças, medos, ousadias, coragens maravilhosas, dúvidas atrozes, e todas as demais coisas concernentes aos homens que vivem no Caminho. Assim, o livro dos atos apostólicos é um livro de história, e não quer ser visto como o Evangelho.

A tentativa de dizer que a igreja é o Corpo de Cristo – e logo, Cristo estava agindo como antes agira, só que agora em Seu Corpo comunitário – é bela, mas não é verdadeira como valor absoluto. O Pedro que recebeu a revelação é o mesmo que recebeu a repreensão: “Arreda, Satanás!” (Mateus 16:23).

Em Jesus está toda a revelação e toda a referência para se julgar e entender o que quer que pretenda ser canônico. Onde o “espírito do Evangelho” está presente, aí há o que levar para a alma e para a vida. No mais, vejo registros históricos da infância da fé e da consciência permeando toda a Escritura.

O exercício não é difícil: basta olhar para Jesus, fazendo um caminho de observação. Deve-se perguntar: Qual o significado das falas e dos ensinos de Jesus para o próprio Jesus? E a resposta é uma só: Veja como Ele tratou a vida, a religião, os políticos, os pobres, os ricos, os doentes, os párias, os segregados, os esquecidos, os seres proibidos, os publicanos, as meretrizes, os santarrões, e tudo e todos. Conferindo uma coisa com a outra, ficamos livres da construção de dois seres irreconciliáveis: o Jesus que viveu cheio de amor e graça e o Jesus que ensinou coisas que só os intérpretes autorizados conseguem “captar”.

Desse modo, então, não se faz jamais uma interpretação textual que não coincida com o comportamento e com a atitude de Jesus na dinâmica de Seus movimentos e encontros narrados.

Assim, eu confiro tudo com o espírito de Jesus, conforme o Evangelho. Só assim Jesus não fica esquizofrênico ante os nossos sentidos: o que Ele disse, Ele viveu; e o que Ele viveu, é o que Ele disse.

“Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e nele estão todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Colossenses 2:9).

“Ele é o resplendor da glória do Pai e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas pela palavra de seu poder” (Hebreus 1:3).

Olhe para Ele, e tudo fica interpretado! O resto, irmãos, é invenção de quem não quer lidar com gente e prefere lidar com letras.

 

E a leitura do Antigo Testamento?

 

“Eis aí vêm dias... em que firmarei nova aliança... na mente (não mais em tábuas), lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, eles serão o meu povo... pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jeremias 31:31-34).

Após tais exercícios devocionais sobre o Novo Testamento, muitos me endereçam questões de perplexidade e confusão relacionadas aos conteúdos do Antigo Testamento.

Mas estou certo de que esse conflito nem Paulo e nem o escritor de Hebreus tinham, por exemplo. Digo isto porque Paulo recorre ao Antigo Testamento, aos salmos e aos profetas, a fim de mostrar que aquela “fase humana” havia ficado sepultada em Jesus; e que, conforme as mesmas Escrituras, em Cristo começaria uma nova consciência, não como mandamentos de exterioridades, mas como percepção fundada no amor, na justiça e na verdade – tudo isto inscrito e gravado no coração.

Paulo também diz que a Lei foi dada, e com ela as causalidades e seus efeitos, a fim de que se avultasse (exagerasse) a consciência do pecado em nós. O próprio Paulo revelou que a Lei era parte da infância da consciência, pois nos servia de guia, de servo que pega e leva para a escola – embora, agora, já andando no Caminho pela fé, ele diga que já não se precisa mais da Lei-babá.

Além disso, toda a argumentação do apóstolo acerca da justificação pela fé conforme o dom da graça se fundamentava nas declarações dos salmos e dos profetas; bem como, além do que estava declarado abertamente nos textos, Paulo interpretava também o que estava apenas implícito na leitura – e ele faz isso lendo a Escritura a partir de Jesus, e não Jesus a partir da Escritura.

Isto porque Paulo lia o Antigo Testamento a partir da consciência adquirida em Jesus. Ou seja: Jesus era a “chave hermenêutica” de Paulo e, a partir dessa chave, Paulo interpreta Abraão, Sara e Hagar, Ismael e Isaque, Esaú e Jacó e outros – sempre com o propósito de mostrar como Jesus era o cumprimento de todas as coisas.

E foi também a partir da mesma “chave hermenêutica” que o escritor de Hebreus interpretou os cerimoniais e os ritos descritos nos Livros da Lei, discernindo seus símbolos, utensílios e arquiteturas.

A carta aos Hebreus chega ao ponto de dizer que Jesus era maior do que Moisés, e maior do que tudo no Antigo Testamento; chamando o que era pertinente à antiga aliança de coisa obsoleta e sem utilidade, “antiquada, envelhecida e prestes a desaparecer”. Hoje, ele diria que a antiga aliança era chamada “velha”, dado seu prazo de validade vencido.

Assim, o que se tem no Antigo Testamento, na antiga aliança, é o seguinte:

1.                       A justificação pela fé, mediante a qual todos foram justificados, de Adão a João Batista. Hebreus 11 declara isto. E isso embora as pessoas vivessem sob “o regime da Lei”, conforme Paulo. A justificação, entretanto, segundo Hebreus e Paulo (em todas as suas cartas), sempre aconteceu pela fé, e nunca pela Lei. Esta é, afinal, a tese de Paulo em Romanos e Gálatas, em especial.

2.                      A busca humana de se justificar pela Lei; pois, estava dito que aquele que desejasse se justificar pela Lei, esse teria que cumpri-la toda. E Jesus, dando continuidade aos profetas, deixou claro que tal obediência à Lei deveria ser por dentro e por fora. Mas é Davi quem diz: “Se observares iniquidade, quem, SENHOR, subsistirá?” (Salmo 130:3). Para então também declarar: “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade” (Salmo 32:2).

3.                      A declaração, especialmente fundada no Livro de Jó, de que as calamidades da vida não são absolutas quanto a determinar o juízo de Deus sobre os homens. E Jó é a prova disso. Normalmente, todo homem acaba colhendo o que planta, mesmo que isto não chegue com cara de calamidade. Muitas vezes, somente a própria pessoa sente as conseqüências. Entretanto, conforme Jó e o Eclesiastes, as calamidades não nos vêm como aplicativo absoluto de uma lei de causa e efeito; e, menos ainda, têm elas o poder de justiça, pois, muitas vezes, é o homem inocente de certos males aquele que recebe as suas conseqüências, e, outras vezes, aquele que faz algo que deveria trazer um efeito negativo equivalente ao mal/causa praticado, aparentemente, sai ileso. E o que ninguém sabe é o tamanho do desmonte na alma desse ser, pois, quando não vem como mal externo (calamidade), sempre vem como mal interno (medo, solidão, angústia, dessignificação existencial, amargura, sofreguidão do ódio, desespero da morte, etc.).

4.                      O que não há no Antigo Testamento é justificação sem sangue. Na antiga aliança, a própria Lei foi sancionada com derramamento de sangue, conforme o primeiro rito de “vestimenta espiritual” praticado “por Deus” no Gênesis, quando cobriu o homem e sua mulher com as peles de um animal morto para vesti-los.

Assim, meus irmãos, no Antigo Testamento nós tanto temos a manifestação da devoção humana de forma primitiva, assim como temos a linha-mestra de indicação do Caminho, e que é uma linha carregada de sangue de bodes e de touros; até que chegou o Cordeiro, que já havia sido imolado desde antes da fundação do mundo (portanto, infinitamente anterior à Lei); e, n’Ele, toda a Lei, tanto os mandamentos de conduta individual e social (os 10 mandamentos, por exemplo) como também as leis e ritos cerimoniais, foram cumpridos; e, com isto, tudo o mais se torna obsoleto, visto que o que agora prevalece explícita e encarnadamente é o Evangelho da nova aliança; e n’Ele, a obediência é conseqüência da fé que nasce do amor que nos amou primeiro e que Se entregou por nós.

Para os que ainda são da Lei, a emoção prevalente como “motor da obediência” é o medo. Já no Caminho do Evangelho nada tem sentido se não for o amor e a gratidão aquilo que movem o ser.

Por último, quero dizer que, na existência, existe causa e efeito em tudo (na justiça legal, nas leis naturais, nas leis econômicas, nas leis físicas, nas leis relacionais, nas leis conjugais, nas leis negociais, etc.) – menos no que tange à salvação em Cristo, conforme o Evangelho.

No Evangelho, a lei fica para o Estado na regulamentação dos vínculos sociais (Romanos 13). Mas ela, a Lei, nada tem a ver com a justiça de Deus para salvação, que salva até o condenado pela lei como fez com o ladrão ao lado de Cristo.

Assim, no tempo antigo, temos gente tentando viver pela Lei, com toda sinceridade; temos gente fazendo de conta que guardava a Lei, com toda falsidade; e temos gente que vivia sob a Lei por fé e esperança num amor maior – que os absolvesse dos rigores da própria Lei que os expôs como transgressores.

Quem se dedicar à leitura atenta dos evangelhos e das inúmeras afirmações de Paulo em suas cartas, mas em especial Romanos de 9 a 11, saberá que a finalidade da Lei é Cristo.

 

Jesus, a chave que abre o coração

 

“Perguntou-lhe Pilatos: O que é a verdade?” (João 18:38).

Ora, conquanto Jesus seja também uma informação histórica – afinal, Ele existiu, e nós não estávamos lá quando isto aconteceu, razão pela qual dependemos completamente das descrições que os evangelhos fazem de Jesus a fim de melhor discernir Seu espírito –, no entanto, o discernimento de Quem Ele era, só acontece como revelação de Deus no coração.

A verdade não existe como explicação, mas tão somente como encarnação. A verdade se fez carne! É Alguém. A verdade é uma pessoa! Por isso, a verdade só pode ser vivida, não pensada. Todo pensamento acerca dela decorre da experiência. A verdade não é objeto de prosa... O Jesus do Evangelho não é para ser aceito, mas para ser conhecido. A verdade que vejo em Jesus – encarnada n’Ele – eu mesmo tenho que conhecer na minha própria encarnação, que é o único estado de existência que eu tive até hoje.

Foi assim com Pedro. Ele conheceu a verdade em Jesus, e teve que experimentá-la em si mesmo. E, provavelmente, o dia no qual ele negou a Jesus, tenha sido um dia de muito mais verdade que a noite da transfiguração.

Portanto, é preciso que cada um conheça Jesus e Sua Palavra, para si mesmo. É preciso que cada um aprenda a ter sua própria consciência em fé, a fim de viver a Palavra por si mesmo.

Em resumo, a encarnação é a “chave hermenêutica” do conhecimento bíblico, mas essa chave tem que abrir antes o meu coração. E isto só acontece no encontro entre a verdade e a vida.

Ora, tal encontro só se dá no Caminho, e é a isso que chamamos consciência do Evangelho. Por isso, aproveito-me deste trabalho para propor um exercício pessoal libertador:

·  Quero convidá-lo a pegar os evangelhos e relê-los como se fosse a primeira vez, e faça-o como se nunca tivesse ouvido nenhuma interpretação deles. Pois, assim fazendo, você logo saberá que o que eu digo é apenas uma nova repetição do que não muda nunca, pois quando se tenta mudá-lo, nunca é para o bem, pois trata-se daquilo que é eterno: o Evangelho.

A necessidade de escrever a mensagem de Jesus veio do afastamento cada vez maior da sua fonte histórica – o próprio Jesus de Nazaré (Lucas 1:1-4; João 20:30-31). Em meados de 70 d.C. já não vivia a quase totalidade das “testemunhas oculares” do Senhor ressuscitado (Lucas 1:2; 1º Coríntios 15:3-8). Esse distanciamento cronológico entre Jesus e as comunidades só poderia ser vencido pela palavra escrita. E assim se formaram as duas grandes coleções ou “corpus” das cartas de Paulo e dos quatro evangelhos.

·  Depois, eu gostaria de enfatizar a necessidade de ler o Novo Testamento na ordem cronológica da mais provável seqüência de sua produção: 1º e 2º Tessalonicenses, Gálatas, Efésios, 1º e 2º Coríntios, Romanos, Colossenses, Filemom, Filipenses, 1º e 2º Timóteo, Tito, 1º Pedro, Marcos, Mateus, Hebreus, Lucas, Atos, Tiago, Judas, 1º, 2º e 3º João, o evangelho de João, 2º Pedro, e Apocalipse.

Como alerta, devo dizer que o primeiro inimigo a ser vencido no estudo bíblico é o pré-condicionamento na interpretação.

 

Então, meu querido, soda cáustica na cabeça, uma boa chacoalhada, limpeza, e início de leitura pessoal e aberta para a Palavra e para o Espírito. Então você verá que começará a surgir o Jesus real das páginas dos evangelhos! Experimente!

Que a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos!

 

Um texto de Caio Fábio D’Araújo Filho

domingo, 28 de fevereiro de 2021

51 – Jesus é Preso (Marcos 14, Mateus 26)


  

Disse-lhes27(versículo de Marcos 14) Jesus: “Vocês todos me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas I’. Mas28, depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para a Galileia”.

Pedro29 declarou: “Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei!”

Respondeu30 Jesus: “Asseguro-lhe que ainda hoje, esta noite, antes que duas vezes cante o galo, três vezes você me negará”.

Mas31 Pedro insistia ainda mais: “Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei”. E todos os outros disseram o mesmo.

Então32 foram para um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: “Sentem-se aqui enquanto vou orar”. Levou33 consigo Pedro, Tiago e João, e começou a ficar aflito e angustiado. E34 lhes disse: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal II. Fiquem aqui e vigiem”.

Indo35 um pouco mais adiante, prostrou-se e orava para que, se possível, fosse afastada dele aquela hora. E36 dizia: “Aba III, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice IV; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres”.

Então37 voltou aos seus discípulos e os encontrou dormindo. “Simão”, disse ele a Pedro, “você está dormindo? Não pôde vigiar nem por uma hora? Vigiem38 e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Mais39 uma vez ele se afastou e orou, repetindo as mesmas palavras. Quando40 voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Eles não sabiam o que lhe dizer.

Voltando41 pela terceira vez, ele lhes disse: “Vocês ainda dormem e descansam? Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantem-se42 e vamos! Aí vem aquele que me trai!”

Enquanto43 ele ainda falava, apareceu Judas, um dos Doze. Com ele estava uma multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos.

O44 traidor havia combinado um sinal com eles: “Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele: prendam-no e levem-no em segurança”. Dirigindo-se45 imediatamente a Jesus, Judas disse: “Mestre!”, e o beijou V. Os46 homens agarraram Jesus e o prenderam VI. Então47, um dos que estavam por perto puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha.

Disse-lhe52(versículo de Mateus 26) Jesus: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão VII. Você53 acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como54 então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?”

Naquela55 hora Jesus disse à multidão: “Estou eu chefiando alguma rebelião, para que vocês venham prender-me com espadas e varas? Todos os dias eu estive ensinando no templo, e vocês não me prenderam! Mas56 tudo isso aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas”. Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

 

v     Para entender a história

Jesus está inteiramente consciente do propósito de Deus ao enviá-lo ao mundo. Ele é o divino Filho de Deus – contudo, nasceu como um homem. A angústia de Jesus no Getsêmani põe em evidência a sua humanidade; ele se defronta com o medo e segue resolutamente para o seu destino. Apesar da agonia pessoal, manifesta profunda preocupação com seus discípulos.

 

v     Curiosidades

                                      I.     “Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas” – Jesus cita o profeta Zacarias (Zacarias 13:7). Ele sabe que todos os discípulos o abandonarão.

                                   II.     “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal” – À medida que se aproxima o momento do martírio, Jesus mostra o seu lado humano. O que o afeta tão profundamente é a angústia mental que deverá suportar, mais do que a dor física. O Evangelho de Lucas registra que “seu suor era como gotas de sangue caindo na terra” (Lucas 22:44).

                                III.     “Aba” – Esta é a palavra aramaica que, na fala das crianças, significava “pai” ou “paizinho”. Ela expressa o estreito relacionamento entre Jesus, o Filho, e Deus, o Pai.

                                IV.     “Afasta de mim este cálice” – “Beber o cálice” é uma expressão do Antigo Testamento que significa “experimentar a cólera de Deus”. Jesus deve sofrer pelos pecados do mundo e, quando a força plena da ira divina cai sobre seus ombros inocentes, ele sabe que estará apartado de seu Pai celestial.

                                   V.     “Judas disse: ‘Mestre!’, e o beijou” – Somente alguém próximo de Jesus sabia onde ele podia ser encontrado sem as multidões que costumavam segui-lo. Saudar com um beijo era uma prova de afeição entre amigos, ou um sinal de respeito de um discípulo para com seu mestre. Jesus, o mestre, oferecera sua amizade a Judas, mas este optou por traí-lo com um beijo.

                                VI.     “Os homens agarraram Jesus e o prenderam” – O sumo sacerdote e o seu conselho dispunham das suas próprias forças de segurança. Armada com espadas e varas, essa “polícia do Templo” tinha o poder de prender suspeitos.

                             VII.     “Todos os que empunham a espada, pela espada morrerão” – Jesus se opunha totalmente à violência. Sempre pregou paz e submissão. Insistia com seus seguidores para que “oferecessem a outra face”, no caso de agressão física. O ataque ao servo do sumo sacerdote não teve a sua aprovação. Lucas assinala que ele tocou a orelha do homem e o curou (Lucas 22:51).

 

- O Jardim de Getsêmani: Este era um dos lugares prediletos de Jesus. A palavra hebraica “gethsemane” significa “lugar das azeitonas”. Situado nas vertentes mais baixas do Monte das Oliveiras, o Getsêmani era o local para onde as azeitonas eram trazidas a fim de serem prensadas para a produção do azeite.

 

Publicada inicialmente na Grã-Bretanha em 1997 por Dorling Kindersley Ltd, 9 Herietta Street, London WC2E 8PS.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Crianças Adultas


 

Provérbios 20:11

Até a criança mostra o que é por suas ações; o seu procedimento revelará se ela é pura e justa.

 

Dia desses li nalgum lugar que, neste princípio de século XXI, as pessoas tendem a se tornarem adultos com comportamentos adolescentes e adolescentes com comportamentos infantilizados. Não discordo disso, pois é possível fazer essa observação na sociedade à nossa volta. Isso pode ser, sob certo ponto de vista, algo ruim, quando remete à falta de maturidade psicológica.

Por outro lado, vemos também que neste princípio de século muitas pessoas que outrora seriam consideradas velhas, hoje já não o são. Chegar aos cinqüenta ou sessenta anos apenas ressalta a maturidade. Depois dos setenta, bem, aí já se entraria na categoria veterana. Isso pode ser, sob certo ponto de vista, algo bom, pois remete a uma esperança de desfrute de vida mais longo.

Outro fenômeno observável é a caricaturização de certas crianças, muito por responsabilidade dos pais que, ou cedem às pressões dos infantes, ou acham bonitinho assim fazerem. Falo da miniaturização que é feita – crianças com roupas adultas e/ou com maquiagem que não é para a sua idade. São mini-adultos em suas aparências. Isso pode ser, sob certo ponto de vista, algo bonitinho, mas também algo inapropriado, quando se torna freqüente, pois pode afetar a formação psicológica, remetendo a criança a ser um adolescente e mesmo um adulto deslocados de suas idades cronológicas.

Mas o que eu quis fazer nestes três parágrafos iniciais, é apenas apresentar alguns arquétipos do nosso tempo – não mais que isso. Quero entrar agora naquilo que realmente quero dizer aqui, para quem por aqui me honra ao ler.

Jesus disse, certa vez, que, se quiséssemos entrar – observe: Ele disse “entrar” – no Reino dos céus, deveríamos nos tornar como crianças. “Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus” (Mateus 18:3).

Isto não quer dizer nos tornarmos infantilizados, mas trabalharmos em nós mesmos para que recuperemos a pureza de coração que havia no tempo da infância. Era lá, nesse tempo, que éramos quem realmente éramos! Com o passar dos anos, tendemos a nos tornar pessoas que se acomodam ou nos tornamos quem não somos realmente, tudo para sermos aceitos nos grupos sociais – iniciando pela família, passando pela escola, trabalho, sociedade, enfim, fazemos de tudo para sermos aceitos, incluídos e não excluídos. Correspondemos às expectativas que sobre nós são depositadas, ou buscamos tirar algum proveito disto ou daquilo. Tendemos a vestir máscaras ou travestirmo-nos em personagens que não são realmente quem somos. Quem realmente somos fica ali, escondido sob uma crosta social que criamos. E o pior de tudo isso é que, com o passar do tempo e segundo formos “representando”, essas máscaras colam tanto em nossos rostos e essas personagens incorporam-se de tal forma que arrancá-las torna-se uma tarefa quase impossível.

Jesus deixou uma máxima para que fôssemos Seus seguidores: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16:24). O “nega-te a ti mesmo” referia-se a isso: negar tudo aquilo que não somos, para que aquela alma infantil que é quem realmente somos apareça.

Vestir máscaras e personagens a fim de sermos aceitos ou, de alguma forma, “ganhar a vida”, empurra-nos a uma perdição de nós mesmos, conforme Ele ensinava: “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” (Mateus 16:25-26). Jesus chega a comparar o “soterrar quem realmente somos” a “perder a alma”. E, de fato, é assim.

É esse “retomar a nossa essência” que nos torna, na nossa fé, como crianças, ainda que sejamos adultos. Confiamos no Pai como uma criança confia no seu. Nos sentimos seguros e amparados.

E aí entram também as nossas atitudes ou, como diz a Palavra aqui usada como mote para este texto, o nosso “procedimento”. Este deve ser adequado àquilo que cremos e professamos. O nosso modo de vida deve transparecer a verdadeira natureza de um discípulo de Cristo – se é que somos discípulos de Cristo.

Ser um discípulo de Cristo independe de religiosidades, de “pertencimentos eclesiásticos”. Ser um discípulo de Cristo é uma decisão. É deixar-se guiar pelos ensinamentos do Evangelho, e incorporá-los em nossa vida, em nosso procedimento, em nosso modo de ser. Ser um discípulo de Cristo é isso: um modo de vida.

E isso pode ser vivido por todos nós. Basta que queiramos fazer assim, que escolhamos caminhar por esse caminho de vida. Caminhar de mãos dadas com o Pai, como crianças adultas na fé e nos cuidados divinos.

Digo sem medo de errar: nesse caminhar o caminho que é Jesus, já encontrei muitos discípulos de Cristo que nem sabiam que o eram.

 

Por hora é isso, pessoal. Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem.

Saudações,

Kurt Hilbert

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

50 – A Ceia do Senhor (Lucas 22, Marcos 14, João 13, Mateus 26)


  

Os2(versículo de Lucas 22) chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam procurando um meio de matar Jesus, mas tinham medo do povo. Então3 Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos Doze. Judas4 dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes e aos oficiais da guarda do templo e tratou com eles como lhes poderia entregar Jesus. A5 proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro I. Ele6 consentiu e ficou esperando uma oportunidade para lhes entregar Jesus quando a multidão não estivesse presente.

No12(versículo de Marcos 14) primeiro dia da festa dos pães sem fermento II, quando se costumava sacrificar o cordeiro pascal III, os discípulos de Jesus lhe perguntaram: “Aonde queres que vamos e te preparemos a refeição da Páscoa?”

Então13 ele enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: “Entrem na cidade, e um homem carregando um pote de água virá ao encontro de vocês. Sigam-no14 e digam ao dono da casa: O Mestre pergunta: Onde é o meu salão de hóspedes, no qual poderei comer a Páscoa com meus discípulos? Ele15 lhes mostrará uma ampla sala no andar superior, mobiliada e pronta. Façam ali os preparativos para nós”.

Os16 discípulos se retiraram, entraram na cidade e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. E prepararam a Páscoa.

Ao17 anoitecer, Jesus chegou com os Doze. Quando18 estavam comendo, reclinados à mesa, Jesus disse: “Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá, alguém que está comendo comigo”.

Eles19 ficaram tristes e, um por um, lhe disseram: “Com certeza não sou eu!”

Afirmou20 Jesus: “É um dos Doze, alguém que come comigo do mesmo prato. O21 Filho do homem vai, como está escrito IV a seu respeito. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido!”

Então 26(versículo de João 13), molhando um pedaço de pão, deu-o a Judas Iscariotes V, filho de Simão. Tão27 logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele. “O que você está para fazer, faça depressa”, disse-lhe Jesus. Mas28 ninguém à mesa entendeu por que Jesus lhe disse isso. Visto29 que Judas era o encarregado do dinheiro, alguns pensaram que Jesus estava lhe dizendo que comprasse o necessário para a festa, ou que desse algo aos pobres. Assim30 que comeu o pão, Judas saiu. E era noite.

Enquanto 26(versículo de Mateus 26) comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos seus discípulos, dizendo: “Tomem e comam; isto é o meu corpo VI”.

Em27 seguida tomou o cálice, deu graças e o ofereceu aos discípulos, dizendo: “Bebam dele todos vocês. Isto28 é o meu sangue da aliança VII, que é derramado em favor de muitos, para perdão dos pecados. Eu29 lhes digo que, de agora em diante, não beberei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o vinho novo com vocês no Reino de meu Pai”.

Depois30 de terem cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.

 

v     Para entender a história

A refeição da Páscoa, com o sacrifício de um cordeiro, comemora a libertação de Israel no tempo do Êxodo, onde estava sob a opressão escrava dos egípcios. A Ceia do Senhor inaugura uma nova era, a da Igreja. Jesus se oferecerá como um sacrifício final. Ele é o “Cordeiro Pascal”, que morrerá para livrar o povo da opressão dos seus pecados.

 

v     Curiosidades

                                      I.     “E lhe prometeram dinheiro” – Judas recebeu trinta moedas de prata (Mateus 26:15). É pouco provável que ele, que era o tesoureiro dos discípulos, traísse Jesus só por dinheiro. Judas era o único apóstolo da Judeia, que estava sob o controle direto dos romanos. Provavelmente, ele traiu Jesus quando percebeu que seu mestre não expulsaria os romanos.

                                   II.     “Festa dos pães sem fermento” – Esta festa judaica é uma comemoração anual da fuga do Egito. Os israelitas saíram no meio da noite e não tinham tempo de esperar que o pão crescesse (Êxodo 12:34). Na semana seguinte à refeição da Páscoa, todas as famílias comem pão sem fermento.

                                III.     “O cordeiro pascal” – Na Páscoa, come-se o cordeiro em comemoração ao Êxodo, quando Deus protegeu o seu povo. Cada família israelita sacrificou um cordeiro e a praga “passou ao largo” de suas casas (Êxodo 12:21-30). Segundo o Evangelho de João, Jesus era o “Cordeiro de Deus” (João 1:29).

                                IV.     “O Filho do homem vai, como está escrito” – Jesus está se referindo às Escrituras, que profetizam sua morte: “Ele foi desprezado e rejeitado pelos homens [...] foi conduzido como um cordeiro ao abate” (Isaías 53:3-7). Jesus sabia que sua morte era inevitável.

                                   V.     “Molhando um pedaço de pão, deu-o a Judas Iscariotes” – No Oriente Médio, é costume molhar um pedaço de pão, ou de carne enrolada no pão, numa tigela de compota. Receber do anfitrião um pedaço de comida é considerado uma honra. Com seu gesto, Jesus fez um apelo final para que Judas mudasse de ideia.

                                VI.     “Tomem e comam; isto é o meu corpo” – O Evangelho de Lucas acrescenta: “Isto é o meu corpo, dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim” (Lucas 22:19). Na Igreja Cristã, essa refeição é chamada “Santa Comunhão” (a Ceia do Senhor). Ela é também conhecida como Eucaristia, palavra de origem grega que significa “ação de graças”, por ter Jesus “dado graças” antes de repartir o pão e o vinho.

                             VII.     “Meu sangue da aliança” – A aliança de Deus com Moisés obrigava os israelitas a oferecerem sacrifícios em expiação dos seus pecados. Jesus anuncia uma nova aliança na qual a sua própria morte será o sacrifício final, definitivo e único para livrar todos do pecado.

 

Publicada inicialmente na Grã-Bretanha em 1997 por Dorling Kindersley Ltd, 9 Herietta Street, London WC2E 8PS.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

É Possível Estar Bem Disposto?


 

Provérbios 15:15

Todos os dias do oprimido são infelizes, mas o coração bem disposto está sempre em festa.

 

A pergunta que faço no título deste texto é, sob a ótica do Evangelho, uma pergunta retórica, daqueles que carrega em si a resposta: Sim!

E estar “bem disposto” é também, pela derivação das palavras, “estar bem disponível” e “bem disponibilizado” para o próximo, estar “bem posicionado”.

Diz a sabedoria popular que “nem todo dia é domingo”, e que “tem dia que é noite”. Estes ditados querem significar que, entre poucos dias felizes há os infelizes, no primeiro caso, e que há dias especialmente difíceis, no segundo.

O problema é que – sabe a Psicologia – as “felicidades” são, sim, interrompidas com facilidade e que as “tristezas” são mais tenazes, ou seja, tendem a se prolongar mais.

Nos tempo em que vivemos, muitos vivem sob pressão e opressão. Parece-nos inescapável que assim seja, haja vista a velocidade em que se passam os acontecimentos pelos quais somos cercados e acometidos. Tudo voa; tudo é urgente!

Para além dos aparatos tecnológicos e das multimídias que fazem parte da nossa vida, parecendo que temos que estar conectados 24 horas por dia, há as demandas que a condição de multi-informados nos tomam: parece que temos que saber de tudo. É um tal de “tudo junto ao mesmo tempo agora”. E isso requer, mais do que ação, reação àquilo que nos é demandado. Uma loucura!

Vejam o caso do WhatsApp (isto vale para quem está lendo isso em 2021, pois, mais à frente, deve haver outros aplicativos similares) –, um aplicativo indubitavelmente útil, mas que nos “encoleirou” a si tal qual um cachorrinho em sua coleira, levado a passear no parque – e arrastado, se parar para cheirar flores ou fazer pipi no poste. As pessoas – a maioria, pelo menos – que nos contatam por este meio se julgam no direito de exigirem uma resposta imediata, fazendo com que interrompamos qualquer atividade a fim de dar o retorno pedido. E os grupos deste aplicativo? Quanto tempo nos tomam? E ai de nós se não respondermos!

Em contrapartida, as pessoas muitas vezes se esquecem que estes aplicativos se tornaram um novo canal de comunicação entre as pessoas – assim como foi, uma vez, o telefone “falado”. Ou seja: no momento em que pessoas se comunicam nestes aplicativos – on-line, quero dizer –, interrompê-las é o mesmo que era interromper alguém ao telefone “falado”, ou interromper duas pessoas conversando face a face; é deselegante!

Lembro do Almir Sater, que já cantava, numa música em parceria com Renato Teixeira, que “ando devagar porque já tive pressa”. E ele completa o verso dizendo que “levo esse sorriso porque já chorei demais”. E é aí que chegamos: às angústias que nos fazem chorar a alma!

Continuaremos a ter pressas na vida, mas há momentos em que é recomendado que andemos mais devagar.

Muitos choros da alma acontecem porque esquecemos de quem somos e com Quem nos relacionamos, quando este Quem É Deus.

Quando nos relacionamos com Deus, em nossas orações e em Sua Palavra, falando com Ele e dando-Lhe ouvidos – dia desses li que devemos “orar não até Deus nos ouvir, mas até ouvirmos Deus” –, as coisas se tornam mais equilibradas em nossos desequilíbrios cotidianos, pois o Senhor nos responde à oração – sempre! – dando-nos uma paz imediata. Experimente orar com sinceridade e verdade, e sinta que, assim que terminada a oração, uma paz além do entendimento inunda seu ser!

Quando fazemos deste relacionamento com Deus e com nossos irmãos humanos um encontro no sentir e ser de Cristo, transformamos nosso modo de vida. Costumo dizer que ser um discípulo de Cristo, e sê-lo de forma livre, não é uma doutrina ou filosofia, mas um modo de vida!

E discípulos não são monges enclausurados em monastérios – são pessoas convivendo com semelhantes e diferentes no chão da vida, dia a dia, em amor!

Quando o relacionamento eu/Deus e eu/outro se dá em tão alta intensidade que eu/Deus/outro já “somos um”, então a harmonia cresce e se torna única!

Aí há condições para que o nosso coração não ande mais aflito, oprimido, angustiado, chorando em prantos muitas vezes inaudíveis e particulares.

Quando nos entregamos aos cuidados de Deus, nosso ser torna-se bem disposto para a vida, festejando a cada dia a unicidade que cada dia merece!

Sim! Esta é e sempre será a resposta à pergunta/título.

Então: leve um leve sorriso em Deus!

 

Por hora é isso, pessoal. Que a liberdade e o amor de Cristo nos acompanhem.

Saudações,

Kurt Hilbert